terça-feira, 25 de novembro de 2008

Há cinco anos...




Torpedos foram lançados como uma tempestade de pedras sem fim, tentando apagar este sentir, a mais estranha história de amor que alguém já escreveu. Quando lhe pedi a paz, a brandura, tive a resposta recortada em lâminas ardilosas e farpas cortantes, um olhar gélido, onde tinha existido o entendimento dum olhar morno, repleto de voos possíveis, entre o encanto e o encantamento. Talvez, tivesse deixado de ouvir, de ver, de sentir a verdade, ficando ancorado numa conspiração mundial contra si próprio, na qual eu era a face visível, de vários rostos ocultos. Um cristal de tempo embutido no muro armadilhado com nove estandartes, na cercadura esverdeada onde se esconde de mim, idealizando as Musas, as que para o poderem ser, têm que continuar o seu caminho errante, conhecedoras do velho sonho premonitório rasgado, como um sopro do vento Norte.

A sua inocência desnudada, foi adquirida por um anjo proditório, tornando a mais bela profecia, na mais perversa história de amor… mas o AMOR não condena, sente-se como um perfume prometido, um tempo secreto que se revela no momento certo.

Há cinco anos... numa terça-feira, como hoje, vagueei pela estrada marginal, até ao local destinado, como um destino que ainda não entendo, onde ele estava repleto de cadeiras vazias… mesmo assim, sentei-me o mais distante que era possível, talvez não me reconhecesse, vinte e um anos era muito tempo, um tempo que nunca existiu... Abandonei o recinto, e voltei pelo mesmo caminho, olhando o outro lado do oceano, sempre com o telefone desligado, pois o meu casamento estava por um fio… na manhã seguinte, como um cheiro primaveril em pleno Outono, quando liguei o telefone tive uma surpresa… ele tinha-me ligado… bruma ou musa, ainda hoje não sei o que me disse.

Resistindo-lhe ele persistiu, entranhando-se na distância do tempo… Hoje perdura na ausência dum voo flutuante, onde as asas indolentes retomam suavemente um voo renovado, a remição que o AMOR conhece e sempre aceita, no momento certo da nossa eternidade.



A CHAMADA

Sempre soube que as pedras
rolam pelas encostas dos montes
se não tiverem nada que as segure
como os teus olhos contrariando
a chamada
do outro lado da casa.


Há uma cadeia de sons
apelando para os odores das águas límpidas,
desses cheiros sem cheiro
oculto na terra viçosa e aberta às chuvas.
Por ela - sem que me perguntem - respondo
mesmo à distância
como se estivesse prisioneiro do seu chamado
no ruído do eco longínquo
que só se escuta no interior dos búzios.

E lá vou
evitando afogar-me nas agudezas das ondas
com a transparência do papel branco
onde decidi deixar para sempre escrito
o amor
com que te imagino no centro do mar
apesar
de no teu dorso de ilha
alguém ter pintando a paisagem absorvente
do apego eterno
e nele respirar um inconfessável medo.

Sucumbo aos chamados surdos
como se nos teus trinados uma canção
se repetisse
nas promessas celestiais.

Sabes porém que não precisas
de artifícios.
Se me dessem o céu recusaria.
Prefiro o teu destino de pecado,
cedo a todos os vícios
e neles ergo os alicerces
de todos os meus princípios.
Na tua boca escondem-se as razões
finais.
Mas não digas a ninguém.
É segredo.


(04-09-2004)

José António Gonçalves [1954-2005], in “Ausência”,
colectânea de inéditos [2008]


Imagem 1: Capa do livro que acabei de ler esta noite...
25 Nov.2008
Imagem 2: “Onda 1” [2000]: Tela a óleo de Mitó Carreiro
(S.Miguel, 1963)
Imagem 3: Eu… entre o sexto e sétimo tempo saturnino...

1 comentário:

Anónimo disse...

Como já de ter percebido, deixa-me sem palavras. O convite permanece, e pode contar com a minha presença na exposição.
Cumprimentos
António Coelho