terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Momento Certo ... Saturnino




Um amigo perguntou-me o porquê do nome deste blogue: “O Momento Certo”. Não sei se consegui responder, provavelmente não, pois o momento certo, é o momento que não preparamos, mas que acontece… como a vida. Acontece quando o Universo o prepara na sua ordem inteligente, numa confluência perfeita de energias. Pode parecer confuso, mas as palavras são sempre imperfeitas face à dimensão da Alma, pois só ela, conhece (pelo sentir) esse momento.

O momento certo é a sabedoria do tempo, a intuição do tempo, na conceptualização da mais pura abstracção: o próprio tempo. O tempo não existe, no sentido existencialista, o tempo é a essência da nossa própria evolução.

Por vezes, falamos das coisas pela rama, não procuramos as raízes mergulhadas na memória. De sete em sete anos fazemos uma revisão das nossas vidas, esquecemo-nos, por vezes, da ancestralidade que está na base destas passagens cíclicas.

Um ciclo de Saturno dura aproximadamente sete anos… não é por acaso que é Saturno. De sete em sete anos Saturno faz uma quadratura a si próprio, pondo muitas questões, reestruturando a energia e o pensamento, pois ela (energia) segue-o (pensamento). Seguir não é perseguir duma forma quase mortífera, sem essa noção saturniana, que Saturno nos pede. A presença de seres poucos evoluídos, e talvez alguma ebriedade, condicionaram o ser que nunca foi híbrido, felismente!

Como estou a fechar um ciclo de Saturno na minha vida, tenho pensado muito nestas questões do tempo, como ele tudo resolve, como o Amor é transversal à passagem do tempo, a noção de eternidade, de perenidade...

Quando Saturno entrou em Leão, em Julho de 2005, alguém andava muito preocupado com estas questões, telefonava-me a altas horas da madrugada, a perguntar-me o que eu ainda não sabia responder. Mas, como a vida para essa pessoa é uma permanente festa palaciana repleta de saias, passou o resto do ano na rambóia, numas corridas entre a casa que deveria ser um mosteiro sagrado, e o aeroporto, para transportar uma coisa disforme, que mais parecia uma personagem dos “Marretas”, talvez a Miss Piggy… Tentei alertar para o que lhe poderia acontecer com aquele ser destrambelhado, mas não me ouviu. Espero que tenha aprendido com Saturno, que por acaso (será?) tinha entrado em Leão nesse ano, hoje está em Virgem.

Saturno é o Deus romano, Cronos o Deus grego, filho de Gaia (Terra) e Urano. Pode parecer inversão aparente da mitologia, mas Saturno representa o passado, o senhor do karma, das memórias, o que nos retrai, enquanto Urano é o apelo do futuro, a consciência do momento presente (será o momento certo???), num futuro onde já existe essa integração dessa consciência em progressão.

Saturno é o olho frio do tempo, pois ele tem memória do nosso karma, daquilo que não resolvemos no passado. É a área onde podemos entender qual a proposta desta vida, qual a matriz e as tensões energéticas que temos que resolver. Mas, ele pode ser uma lâmina fina e subtil, pois uns aprendem com os erros, outros permanecem encerrados neles, atafulhados de “caderninhos”, que entregam a desconhecidos, com aquele ar plácido, onde se encobre a herege traição, de outras vidas, e desta, pois Saturno ainda não está integrado. Quando "alguém" entender esta experiência limite, a mulher que dizia ser a sua sombra que lhe devastava a vida... perceberá e saberá reconhecer o "Senhor do Karma" - Saturno.

Segundo Jung, nos seus estudos referentes ao inconsciente colectivo, a sombra representa um peso saturnino, as massas não assimilam de imediato um novo pensamento criativo, podem demorar três ciclos de Saturno.
Saturno é a responsabilidade em aceitar quem somos, com o entendimento dos erros que devemos tornar transparentes, pois assim, ampliamos a consciência, como uma espiral evolutiva saturniana. Onde está Saturno no nosso tema natal, é onde está a energia de aprendizagem, relacionada com o karma, com as energias que temos que desbloquear, pois Saturno é a responsabilidade que temos no tempo… talvez, certo.

Saturno no meio do céu (MC) a 3º de escorpião, na casa IX, faz sentido em toda esta estranha história, tem uma lógica embutida numa pedra ainda não encontrada. Talvez… já encontrada, não sei. Saturno, na matriz energética que não revelo na totalidade neste espaço, faz quadratura ao Sol, a 9º de leão. O Sol representa a consciência, o fogo, o ego, a expansão… Uma quadratura de Saturno ao Sol, com um Marte na casa XII, fazendo este Marte uma outra quadratura a Vénus na casa VIII, estando Vénus a 23º em conjunção à Lua a 25º...
… fica para um próximo texto, pois não quero ser hermética, intricada nas palavras, como já me "acusaram" algumas vezes.

A matriz de encarnação é implacável, certeira, não a podemos mudar, não no sentido trágico, de destino, de fado, mas no sentido que os aspectos menos positivos, para não dizer negativos, são a grande oportunidade de evolução. Quem nasce só com bons aspectos, não tem grandes questões para resolver nesta vida, quem nasce com maus aspectos, tem uma oportunidade dada pelo Universo para evoluir, para ascender, na compreensão da proposta que “ELE” nos colocou nesta encarnação. Devemos ser fiéis à nossa evolução universal.

Percebi que não tenho que me defender de nada, pois a culpa, o julgamento e o medo, são crivos saturninos. Quem ama perde o medo, perde todas as aberrações e perversões mentais, todos os jogos falsos de conquista plutónicos.
A vida é a grande oportunidade de libertação... saturniana.

IDADE MADURA

As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras, nem delas careço.
Tenho todos os elementos
Ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
Nem mesmo sinto falta
do que me completa e é quase sempre melancólico.
Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
Absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
Durmo agora, recomeço ontem.

De longe, vieram chamar-me.
Havia fogo na mata.
Nada pude fazer,
nem tinha vontade.
Toda a água que possuía
irrigava jardins particulares
De atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.

Nisso, vieram os pássaros,
rubros sufocados, sem canto,
e pousaram a esmo.
Todos se transformaram em pedra.
Já não sinto piedade.

Antes de mim outros poetas,
depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.
Moças fatigadas se entregam, soldados se matam
No centro da cidade vencida.
Resisto e penso
numa terra enfim despojada de plantas inúteis,
num país extraordinariamente, nu e terno,
qualquer coisa de melodioso,
não obstante mudo,
além dos desertos onde passam tropas, dos morros
onde alguém colocou bandeiras com enigmas,
e resolvo embriagar-me.

Já não dirão que estou resignado
e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo,
Há reservas colossais de tempo,
Futuro, pós-futuro, pretérito,
Há domingos, regatas, procissões,
Há mitos proletários, condutos subterrâneos,
Janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei, médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:
tudo depende da hora
e de certa inclinação feérica,
viva em mim qual um insecto.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.

Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa,
e ganho.

Carlos Drummond de Andrade
[1902-1987, in "A Rosa do Povo - 1945]


Imagem 1: Dalí: A Persistência da Memória [1931]
Imagem 2: Dalí: A Desintegração da Persistência da Memória [1954]
Imagem 3: Matriz energética: Saturno no Meio do Céu (MC)

2 comentários:

Anónimo disse...

Cristina: respondeu à minha questão, para além das suas palavras, mais que perfeitas.
Obrigado.
António Coelho

Anónimo disse...

Gostei do Saturno! - depois falamos.
Bj
Gabi