segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Entre os 20 e os 40...




Entre os 20 com maquilhagem e os 40 sem maquilhagem… deveria ser ao contrário, mas não é. Aos 20 estava presa na imagem fugaz da inexperiência palpitante de quase tudo, a dor que já me tinha tocado pela primeira vez da forma mais cruel, mas que ainda não queria sentir… por isso não fiquei mergulhada nessa mesma dor, que reencontrei 20 anos depois…

… do mundo que queria mudar à minha imagem, talvez semelhança… ficou guardado na gaveta secreta dos tempos… hoje, pouco quero da vida, só a paz de entender o porquê de tanta crueldade que inunda a humanidade na generalidade, na especialidade de um ser devassado na sua cobardia, encerrado na sua hipocrisia, prisioneiro desse medo de amar...

…juro que não entendo…
mas tento entender, a cada momento do resto da minha vida, a impossibilidade dum amor imenso, que nunca mais me abandonará...

Onde acaba a negligência e começa o dolo, qual a linha de define os juízos de probabilidade e os de previsibilidade, será que falta tipificar alguma conduta que seja dolosa, ilicita e culposa? Será que estão contempladas, na nossa lei criminal todas as causas de exclusão de ilicitude?
Teorias criminalistas do comportamento humano da acção e omissão, como comissão (art. 10º C.P.), será o silêncio potestativo uma omissão do comportamento humano doloso?

Não sendo os actos preparatórios desse Amor puníveis, será a continuidade uma agravante desse estado patológico? Será a omissão de auxílio, considerado crime nesses casos?
Será? Será? Será?
Não sei, o que sei é pouco, o que sinto é demais…

Fugi deste Amor durante tanto tempo, tempo que "ele" não reconhece, por medo desta doença que é amar, do medo de dizer: “Amo-te!”. Disse-o, talvez uma única vez, talvez de joelhos, numa cama igual a tantas outras… fugiu de mim da forma mais cruel, tendo “depositado” nessa mesma cama uma outra mulher, sete dias e sete noites depois, que diz ser eu…
juro que não entendo…

Será o Amor um mero homicida negligente ou doloso? Se for doloso será ele directo, necessário ou eventual? O AMOR é um estranho, talvez vulgar homicida…
A verdade é aquilo queremos que seja…

Escrever mais, será sem dúvida, escrever demais...

Maria do Rosário Pedreira, escreve os poemas que eu gostava de ter escrito para “ele”, os que escrevo, estão guardados numa gaveta secreta, pois o primeiro que lhe revelei, escrito em Granada, há quase 3 anos, está enclausurado num “apinhamento”, talvez “enogueiramento” duns papéis bafiosos, para análise do desconhecimento emparedado, duns funcionários administrativos dum qualquer estado social e socialista que há muito deixou de existir…

A pinha que lhe atirei, foi o presságio da mansidão duma nova dimensão deste Amor… as pedras que “ele” me atirou, foram para matar este Amor, foram para me matar...
…será que conseguiu? O fim já não me interessa, mas o caminho que todos os dias percorro no reencontro desse mesmo Amor.

Aos vinte…

De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Maria do Rosário Pedreira, in “Nenhum Nome Depois” [2004]


Aos quarenta…

Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes da viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos – tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-te. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos – nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.
Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2001]

1 comentário:

Anónimo disse...

Um dia vou poder dizer o mesmo, mas ainda sou um miudo como dizes.
Prefiro a foto dos 40, mas falta uma aos 30.
Bj
Nuno