quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Da Água para Terra...




Vulnerabilidade da água, talvez seja a capacidade de aceitar sem nada pedir, como a noite velada, numa estrada entre a demência e a premência dum momento certo por reencontrar.

Não sei qual a razão, mesmo que irracional de tanta devastação mental, em que se precipitou um ser. Arreigado entre a sua descendência e ascendência, entre a primeira água canceriana do sentir da infância, da doce mãe, e a última terra capricorniana da responsabilidade social, desse sentir projectado num ideal colectivo, num gregarismo superficial e electrizante, quando deveria incidir essa água distinta de grandes memórias de outras vidas, num colectivo umas oitavas acima, com outra abrangência intelectual.

Câncer escondido na sua carapaça de sentir, Capricórnio obstinado na sua concretização social... será esta separação mental ou emocional? Integrar as polaridades não é tarefa fácil, como não é linear resolver oposições e quadraturas kármicas. O Universo é sistémico, entender o Amor duma forma analítica, é um desmembramento de seres alterados, num laboratório onde a prova reina como coadjuvante no inferno da sua arte.

Por vezes, sinto-me como uma artesã do Amor, daquele que é bordado no mais puro linho, como quem pinta uma tela daquilo que não vem nos jornais. O Amor é um clandestino predador, no livro que está a ser escrito… mas a verdade do que aconteceu, só nós a sabemos. O Amor, esse vulgar homicida reencontrado, esse silêncio desnudado eivado nas linhas das mãos, em forma dum templo cruel, esse jardim incendiado, na janela que recorta o Mar em quadratura, a Sul e a Oeste... O lado masculino irradia na varanda mental virada a Sul, fechando-se ao horizonte feminino a Oeste...

Desenhei o nome desse ser emparedado, no vidro embaciado do carro, no centro duma qualquer cidade perdida de si… Tanta gente e ninguém, pois quem ama vive, quem não ama sobrevive…
O Amor declarativo será sempre uma denúncia atormentada, mas o Amor narrativo, exaure-se na evasão entre os tormentos da adjectivação do narrador, quiçá, personagem principal num qualquer palco secundário.

Estranho eixo de evolução de Câncer para Capricórnio, a 13 graus… a caminhar dum mundo de memórias subjectivas e de imaturidade, tentando definir o dharma, a missão que se materializa na última terra que é Capricórnio. Essa materialização do social deverá incorporar as águas do câncer, não abrigando a alma na armadura do medo do sentir, pois esse sentir reconduz ao passado, a memórias dolorosas e kármicas. Trilhar esse sentir, é saber aceitar, sem medos, sem vazios lunares, sem equívocos cósmicos… aprender que quem ama, não se defende, não acusa, pois quem o faz é o ego, e só a Alma reconhece isso a que chamamos Amor.

Esse é o processo de individuação, que Jung refere… saber atravessar o grande deserto ou as grandes águas, a porta oculta de escorpião, é saber identificar o eixo de evolução, que nos leva da cauda à cabeça do dragão.

A Lua é o regente exotérico de Câncer, sendo Neptuno o seu regente esotérico.
Saturno rege exotericamente e esotericamente Capricórnio…
o Tempo de Saturno Capricorniano.

Faz sentido esse medo de Amar…

Devemos ter compaixão por esse ser que teme o Amor, que se refugia numa gruta fina, com medo da água que continua a correr em cascata sem parar, que se perde em fendas lunares de corpos densos, onde as passageiras sem título de transporte não passam de massagistas ao domicílio cheias de avareza, ou meras damas de companhia da solidão onde mergulhou, das miseráveis mentiras confessadas aos quatro ventos, na sombra dum ego que nunca amou nada, nem ninguém...

A primeira vez que Marte reconheceu Vénus, teve medo e fugiu, como um guerreiro duma guerrilha que Vénus nunca desejou. Mas Vénus é Una, numa tripartição criativa…

Vénus devolve a fragilidade, reconduz-nos à luz, que “alguém” ainda tem medo de aceitar, mas Vénus é o último sopro pacificado da arte criativa, esse reencontro do momento certo, onde reina a inspiração dos Deuses e a sabedoria dos grandes Mestres…

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Amávamos ambos as falésias, o recorte das escarpas,
o desenho irregular dos promontórios; todos os lugares
que, como as ilhas, são agastados pelo mar e pelos ventos.

Não havia neblina nessa noite. Apenas a luz opaca
de um farol atormentando as estrelas. Disseste
quase nada para não ferires um atordoado silêncio
interior. E tocaste-me pela primeira vez os seios
como se disso, para sempre, fosses ter medo.

Abandonaste a praia logo que chegou o primeiro pescador:
a primeira lanterna,
a primeira rede.


Maria do Rosário Pedreira, in "A Casa e o Cheiro dos Livros" [1996]

Imagem 1: Câncer
Imagem 2: Capricórnio
Imagem 3: Eixo evolutivo de Câncer para Capricórnio...

1 comentário:

Anónimo disse...

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