sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Um Amor Feliz.




Por vezes, a incapacidade mental que tenho de entender o mundo que circula é enorme. Os olhares das pessoas, inundados de preocupações, de becos sem saída, de pequenas questões quotidianas, de mil e um olhares rudimentares. Muitos são os que deambulam no fio da navalha, quase na impossibilidade de sobreviver. Sinto (este é o meu mundo... ainda) que a humanidade está na pré-história da História. Como tudo isto ainda é básico, primário, norteado duma materialidade atroz.

Talvez os grandes filósofos, os pensadores magistrais o tivessem sido, pois tinham a possibilidade pragmática de se alhearem da vida "particul(i)ar" e pessoal do corpo denso, vital, do corpo de desejos, passando a mente (pensamento concreto) e o ego (pensamento abstracto)... seguindo o rumo da simplicidade do sentir, até um ser desprovido de ego, tocando o plano divino.

Começo a perceber o que aconteceu na história da minha vida. Conheci o meu karma, quase aos 40 anos, pois tive essa possibilidade, a vida para aí me impeliu, e por vezes, quase me expeliu. Se há 20 anos me tivessem dito que eu teria que resolver nesta vida a conjugação: Plutão, Marte e Urano em oposição a Saturno, eu nada teria pensado, excepto a concepção dos incapazes que denominam (mas não dominam) o que não conseguem alcançar... como loucos. Sempre naveguei nas águas do pacifismo, nunca me imaginei a bater fisicamente em ninguém, muito menos alguém tentar matar-me. Dei comigo mergulhada numa hecatombe, que desconhecia a sua origem. Rebusquei e agora começo a entender, nem cedo, nem tarde, o momento certo é determinado pelas energias cósmicas que ninguém controla, talvez Deus... ainda não sei.

Aconteceu nesta vida, foi este o momento escolhido para o presente oferecido pelos Deuses ser desembrulhado, o papel azul sem fantasia com laço dourado, o ouro mais puro que presenteia o Amor, o vinho nobre e velho... muito velho, cruzando as castas ancestrais, de outros tempos que a memória não pode alcançar.

Este foi o momento, a encarnação escolhida pelo Universo. Agora sei (ou sabemos...) que este foi o melhor presente que os Deuses delinearam para nós, o momento certo… talvez esta tenha sido a melhor prenda que demos um ao outro.
Fugir deste Amor… foi o meu exílio vidas e vidas…


Um olhar feliz foi o que hoje reencontrei em mim, por te amar (porto de mar), a possibilidade de amar é escassa, a matriz de desenvolvimento e ascensão é única em cada ser, nenhuma matriz energética se repete no Universo. Quais máquinas de aceleração de partículas, pré-história da humanidade!

Quando as luzes se apagarem no teu palco de madeira-nogueira por dentro (a noz foi o símbolo que no momento não entendeste, hoje conheces os sinais... o olhar, também eu quase o perdi há 9 anos, estava escrita a minha morte aos 33 anos, mas superei-a...) mas banalizada por fora, quando mergulhares no que verdadeiramente és, não fugirás mais de mim para ti… só eu sei quem ÉS.

A enciclopédia que dizias teres de ler, para me entenderes, condensa-se na concretização de Marte na casa XII, na conjunção da Lua e Vénus na casa VIII. Está plasmado no desígnio dos Deuses o nosso momento certo…

Vagueias nas vielas da vila quase vilã, com esses seres primários, de primeiras passagens por aqui… é triste o espectáculo em teu redor. Gente analfabeta, manager’s de gestão caseira, miúdos e miúdas de brinco na orelha e cigarro na mão! Secretárias que não sabem escrever português, muito menos transcrever, mera marioneta de companhia nas noites de Domingo. Depois, exala o fumo da nicotina e do alcatrão na praça pública como uma funcionária nata.

Esse não é o teu mundo, mereces muito mais que o Olympia (já o escrevi aqui), mas cada vez as salas são mais pequenas, para dar a sensação que estão cheias. Pequeno o teu mundo exterior, grande o teu mundo interior. Estratégias de “marquetingue” goradas, pois o acto de criação move-se na linha do sublime, não desses arraiais coloridos, a fumegar de veraneio onde te moves, pois tens contas para pagar no fim do mês... As velhinhas de Viana do Castelo, com cadeiras de praia, com o seu “crochet” em punho… toda esta dança é ridícula, previsível como as fases lunares, no hemisfério Norte.

Foge comigo… essa é a tua única estrada onde o sonho toca a impossibilidade do real.
Toscana, Paris, Açores, Creta…
o local do Universo que escolheres, mesmo o Inferno mais doce, só eu parto contigo…

O Amor tem sempre um Olhar Feliz, mesmo quando tentamos dissimulá-lo. Tentei… nas longas conversas com um Índio Ameríndio, que desceu as escadas até ao rés-do-chão à procura duma folha branca, no rio azul… O nome dele foi revelado numa noite de Setembro, há quatro anos, num longo sono no meu regaço… pediu perdão a “Rosewell”, quem será esse personagem? Talvez, um dia revele... nas palavras adormecidas no meu colo...
Esse mês de Setembro foi frio, olhava para os meus pés envoltos em sandálias à porta da entrada e perguntava-me: "não tens frio nos pés?", a seguir abraçava-me e ía dar de comer aos gatos...

Queria cobrir-me com engobe, para que não me reconhecesses mais… mas somos água a caminhar para terra: eixo escorpião – touro e câncer – capricórnio. Estamos perto da velha praia e sei que ainda não consigo tocar-te fora do mar… O peso dos corpos é diferente no mar e na terra...

Já não te engano com promessas vãs, nem com fugas a meio da noite... sobrevivemos…
...a correspondência I e III revelam as existências trocadas. A pedra angular, o atalho grávido entre a primeira e a terceira… Só nós caminhamos de água para terra, troquei (e toquei) o percurso do eixo há 26 anos, para que não me reconhecesses. Ela caminha para água, nós para terra… o tempo foi escolhido por nós, neste longo exílio de percursos trocados.

Um olhar feliz… “quit don’t say you love me”, será este o próximo depósito dos solos de guitarra no corredor hipócrita do tribunal?

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Tola superstição. Infundado receio. É já sorrindo que transpõe os últimos metros que nos separam; é sempre sorrindo, e sem as prudências habituais, que logo me beija, encostando a cabeça ao meu ombro, antes ainda de eu fechar a porta. Em seguida, procurando os meus olhos, com a expressão de quem deseja sentir-se perdoada de não sei que falta, quase soletra as seguintes palavras:
"Olhe que eu não podia fazer outra coisa."
Imediatamente percebo que se refere ao nosso frustrado encontro de anteontem, no território dos ameríndios:
"Claro que não. Nem eu. Teve de ser assim."


David Mourão-Ferreira, in “Um Amor Feliz” [1986]

Foto 1: Capa do livro “Um Amor Feliz”

Foto 2: Andorra, há uns anos… (pensei que era feliz… enganei-me). Ele andava perto, eu fugia dele e da minha sombra...

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