terça-feira, 16 de setembro de 2008

O Amor... esse Momento Eterno.




O mundo lá fora cada vez me interessa menos. Como se já não tivesse o sonho de mudar o mundo, pois ele modifica-se por dentro, no centro do infinito que tudo pode iluminar e simplificar.

Nos últimos tempos, muitos foram os convites pessoais e profissionais que recusei, esta doação sem-tempo, esta incondicionalidade de entender a crueldadade brilhante dum novo Deus.
A nova era aquariana começa a dar os primeiros passos... Um à frente, dois para trás, uma nova estruturação mundial vai surgir depois do alinhamento energético de forças cósmicas poderosas em 2012, está nas mãos, ou melhor na órbita de Neptuno, esse novo entendimento mundial... libertem todos os prisioneiros...

A devastação da verdade, imemorial dum sorriso de outros tempos, duma inquietação esfumada, como se tivesse (tivéssemos?) que destemporalizar as brasas quentes, como doces suspiros dos nossos karmas.

As fissuras abriram-se, e a lava incandescente queimou tudo em redor, excepto para quem o pensamento se tornou geométrico e seguiu em frente, na mais pura crueldade. Talvez, o cubismo seja a forma de arte mais perfeita para quem quer encetar a maior fuga da sua história. O cubismo foi o pai do orfismo, entre Picasso e Appolinaire…
...ele encerrou-se no seu “cubo cruel”, eu na minha “esfera sem rédeas”, e o desenho animado destas duas formas em confronto está quase encerrado.

O verdadeiro Amor é excessivo, é um acontecer cósmico que transborda a dimensão simbólica da vida… Estamos perto de libertar o mito cravado na lava, no altar da cumplicidade das nossas almas…

Como a velha águia exilada, sinto-me a renascer a cada dia, como se não tivesse mais que cumprir o seu pedido. Os vértices e arestas do seu cubismo implacável, arredondam-se à medida que as luzes se apagam e o camarim se esvazia…

A dor que trespassou a própria morte, engravidou a minha voz, delineando em curvas mais finas a voz do "tenorino", numa aproximação geométrica e vocal.


Há um ano, não aceitei um convite, talvez este ano (já não me sinto exilada…) vá no final deste mês até Aulnoye-Aymeries, norte de França, junto da fronteira com a Bélgica, pois existe a possibilidade de criar um espectáculo similar neste pequeno quintal plantado à beira mar. Nessa pequena vila, no teatro “Léo Ferré” (rue Foyer), será feita mais uma apresentação dirigida por Ronny Lauwers, um senhor belga que já foi director da Ópera da Flandres, e realizou um verdadeiro espectáculo com três intérpretes vocais-teatrais e dois musicais. Nomeadamente, com Ann De Prest, Hannelore Muyllaert, Benoît De Leersnyder e o grande pianista Hein Boterberg, acompanhado ao violoncelo por Lode Vercampt.

Faltei ao apelo que me foi dirigido há um ano, estava muito cansada...

A ideia já juntou uma série de pessoas, para a realização dum espectáculo similar em Portugal, em homenagem (apesar de defender que elas não devem ser póstumas, mas em vida… o momento certo…) ao grande compositor, poeta e intérprete: LÉO FÉRRE!

“O AMOR… ESSE MOMENTO ETERNO” (“L’Amour… cette éternité de seconde”) foi o título dado a esta apresentação, que retrata o “tempo último” ou “último tempo” (???) de Ferré na Toscana, onde faleceu em Julho de 1993… Cantado à capela, a solo, em dueto, em trio, a obra de Ferré é mais que Universal, toca a cosmologia da Alma que só o é, quando encontra o Divino dentro de si!

Nenhum “criador” vive a tocar o sublime do momento certo, que a criação artística numa primeira fase encerra, e depois liberta, pode dizer que Ferré ocupa um pequeno lugar na estante da sua discografia. Sinceramente, não acredito, foi mais um “bluff” para dissimular a sua verdadeira criação, mais uma fuga (?).

As partituras enviadas (ainda não seguiram todas…) esperam pela frutificação duma nova recriação.

O alinhamento desta apresentação, contemplou alguns diamantes da sua obra.
“Notre Amour”, que inicia o espectáculo, cantado à capela por Ann De Prest, reflecte o embalo celeste que a voz de Ann nos transporta, neste uníssono iniciático.
“En Amour”, é a sequência musicada, na sua excelência.
“Porno Song”, desenquadra-se do alinhamento, tentando ironizar, na voz menos conseguida de Hannelore.
Segue-se “Ta Source”, um deslumbre ouvir e ver Benoît.
“Tu penses à quoi”, é um dos diamantes de Ferré, interpretado magistralmente por Ann.
“La Jalosie”, revela a raiva interpretativa deste tema.
“Le Superlatif” é um encanto ouvir, e mais uma vez ver Benoît, sentado no piano, interpretá-lo.
“Je t’aimais bien, tu sais”, com Ann num acompanhamento vocal, a sua voz como instrumento de religação (re-legião) ao divino, mas longe da perfeição a declamação cantada de Hannelore.
“Des Mots”, revela a entrega total de Ann a este tema.
Segue-se “Opus X”, ao piano, logo seguido por “Je te donne”, onde a genialidade do original, ofusca a interpretação em dueto, a conjugação dos graves e agudos vocais de Ann e de Hannelore ficaram longe da intenção.
“Les oiseaux du Malheur”, fica-se na razoabilidade, assim como “Lorsque tu me liras”.
“La Manque” interpretação teatral de Benoît, que sendo um encanto quase angelical, fica-se pela teatralidade dramática-barítona, poderia chegar a um tom tenor, o resultado teria sido melhor.
Depois, surge “AMRIA”, de Lucien Postman, interpretada por Benoît, quase lá... no tom perfeito, mas ficou no quase.
“De toutes les couleurs”, mais uma interpretação de Hannelore, tocando os agudos, pouco do meu agrado pessoal.
“L’amour Meurt”, os três intérpretes mais que literais de Ferré juntam-se, poderia ser melhor…
O “line-up” finaliza com “L’Opression”, onde muito mais que a interpretação, ressalvo a tonalidade de voz de Ann e o seu olhar final, talvez fatal, como foi a vida de Ferré…

Acabo com o início, pois nem sempre, o fim é o início de cada momento.
Permanecer o olhar nas vidraças dos carros que se cruzam, frente a frente… fujo de ti e encontro-te, como se uma força estranha aproxima-se a nossa mente divina… acabo com o início :“Notre Amour”, só nele ainda acredito.

Mas Aulnoye-Aymeries espera-me, e muito mais… esperei 21 anos (não foram 11…) por ti… só tu sabes porquê…

Acaba assim a canção:

“Car notre amour est plus fort que l’amour…”

Notre Amour, Léo Ferré (*)


Pode ser visionado parte do espectáculo, objecto desta dissertação em: www.leoferrelamourdeseconde.com/video


Dia 27… le théâtre Léo Férre… voo para Paris-Lille, ou mais simples via Bruxelas…

(*) esta partitura ainda não seguiu por correio, seguirá no momento certo… segues-me nesta estranha frente de vagas do assombro de outros tempos… não me procures nos próximos tempos, sou uma divorciada ocupada, no frente a frente que não entendo, a caminho da galeria...

Foto 1: "L'Amour... cette éternité de seconde".
Foto 2: Léo Ferré, na Toscanie...
Foto 3: Ann De Prest e Hannelore Muyllaert - Foto de Emille Lauwers

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