quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Este Sentir Excessivo




Falar de Natália é falar num dos expoentes máximos da poesia mundial. Se tivesse que escolher três poetas portugueses que imortalizaram a língua portuguesa, um deles seria, sem dúvida, essa mulher desmedida, transbordante, que teceu nas palavras os silêncios cúmplices, a tranquilidade suprema da queda no abismo do amor, a extravasão vulcânica desse sentir sempre excessivo.

Ando a reorganizar a minha biblioteca, que estava dispersa por três casas, e neste andarilhar, reencontrei alguns livros perdidos na poeira que o tempo assentou. Nunca a conheci pessoalmente, mas recordo-me dum episódio, corria o ano de 1990-91... ia quase sempre, almoçar aos sábados a um restaurante perto da faculdade onde estudava. Era um pequeno restaurante, penso na Rua Rodrigues Sampaio, onde eu e o meu companheiro “talhávamos o futuro”, tudo corria bem nesse início da década de 90. Trabalhávamos juntos, os negócios corriam de feição, tudo era quase perfeito…

Recordo-me desse pequeno restaurante, duas mesas ocupadas: onde eu estava e a mesa onde estava a senhora com algumas pessoas. A voz dela impunha-se naquele pequeno espaço, como rajadas de ventania, que legitimavam qualquer pecado, por mais sagrado que fosse. Só percebi que era ela no final do almoço, quando a senhora se levantou com o seu porte corporal farto, mas uma leveza flutuante no olhar, disse-nos “boa tarde” e saiu. Senti as vidas que já tinha vivido, como se já não coubessem no sentido tradicional do que chamamos vida…

A densidade e a intensidade sentem-se nas ilhas, como se de vestígios da Atlântida se tratassem… o cheiro intemporal, os verdes únicos, a expressão do silêncio gradativo, o olhar dum outro tempo… que navegou por outros mares, outros continentes, até o reconhecimento de quem sempre conhecemos…

A poesia também é assim… surrealista na perfeição sublime da realidade, embriagada no prazer lúdico duma consciência ampliada, na perenidade dos sons esculpidos no voo dos pássaros, na violência onde os sentidos se desnudam, na paz que só conhecemos depois da guerra… dum amor inteiro e peregrino… deste sentir excessivo, a fuga do medo de amar, de perder o plano do real, o fio umbilical dum Sol a 9 graus de Leão, mergulhado na água, dum Saturno a 3 graus de Escorpião, imbuído no fogo…
não sou eu que digo, muito menos escrevo… a matriz energética de cada um revela o padrão supremo de evolução, a “missão” que temos nesta encarnação. Mas, hoje estou cheia da sua estupidez perversa, das ciladas que me preparou, da rua onde me pegou ao colo e derramou o azul que só eu conheço, rua que devería ter rosas a florir, mas está armadilhada com tanques de guerra, jipes com rapazotes marginais…

... ainda vamos beber champanhe, ou talvez, absinto… quando em surdina os sons estridentes acabaram, e as pedras arremessadas florirem como rosas vermelhas, quando os punhais da insensatez brilharem como uma espada de verdade, quando as pérolas das lágrimas que chorei, tocarem o diamante em bruto, que tentei lapidar… tentei…

Só este sentir excessivo me move… como escrevia Natália, em Outubro de 1992, no prefácio da colectânea de poesia: “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias” –

“ … É nesta cosmicidade do idioma poético que surge a tentação remissiva que nos convida a revisitar Velhos Tratados Espirituais em que cada letra do alfabeto corresponde a um número numa relação significativa de um constituinte do Universo…
Daí a justiça poética, termo que no século XVII por fim dá nome à moral da vida verdadeira que participa da vida do Universo, moral congénita à poesia que, por isso mesmo, pune a falsificação da vida submetida às leis de moralismos utilitários…”


Creio nos anjos, e no Deus da crueldade, no que é, não no que quer parecer ser.

A profecia concretizou-se nessa crueldade ostensiva entre o profeta e o poeta, entre o sol das tuas noites e o luar dos meus dias...


Poesia:
Ó Véspera do Prodígio!

IV

Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio na Deusa com olhos de diamantes
Creio em amores lunares com piano ao fundo
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes
Creio em tudo eterno num segundo
Creio no céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além

Creio no incrível, nas coisas assombrosas
Na ocupação do mundo pelas rosas
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.


Natália Correia, in "Sonetos Românticos" [1990]


Foto 1: Natália Correia

Foto 2: Eu... na Ilha... nem o colete me salvou do naufrágio do fim do meu casamento [2003]

1 comentário:

Anónimo disse...

Os teus gostos refinados, Natália Correia foi uma grande senhora, não do meu tempo, tens razão.
Bjs
Nuno