sábado, 16 de agosto de 2008

Saudades de Paris...




Saudades de Paris…

O rasto e o resto da tua história toca a tecla da pequenez e da embriaguez. Continuas a sobreviver no jogo mesquinho da tentativa de estar vivo... ninguém se lembra do palco do Bobino, só eu me recordo de cada momento perdido no vazio da tua existência.

Ontem, a Lua foi minha confidente e clarificadora da estrada errante onde deambulas... são deprimentes as terrinhas apagadas do mapa, é grandioso o jogo de hipocrisia viciada: agradecimentos a comissões de festarolas onde o analfabetismo é rei... são os mineiros, os talhantes, os camionistas... gente do povo, com o devido respeito, mas não foi para essa gente primária que voltaste aqui... são relevos da pacatez designados numa sombra soalheira, pequenas saltitantes como pipocas, rapazotes parcos a tresandar a álcool... toda a encenação é pura miséria... de ti.
Como estás cheio dessa vida aparentemente reluzente, mas profundamente vazia. Confessaste-me uma noite, que estavas farto dessa vida... A tua arte grandiosa resvala nesses espaços, onde a massa humana, é só isso... meros sobreviventes, meros funcionários da vida, com horas marcadas num picar de ponto, sufocados no vazio do nada.

Mereces mais que o Olympia, mas continuas a esbracejar na mera agitação do ar, incapaz de voar, para o outro lado. Talvez, penses que estou contra ti, mas estou ao teu lado. Por vezes, lastimo a tua incapacidade de tentar entender o que aconteceu.
Estou à tua espera lá em cima... só tu sabes onde estou.

Tenho saudades de Paris, mas não me ouves, vais continuar circundado de operários suburbanos, que de arte nada percebem. Dilacerado no mero jogo da sobrevivência mundana.

Saudades de Paris...


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Je T’ Aime

Je t’aime pour ta voix pour tes yeux sur la nuit
Pour ces cris que tu cries du fond des oreillers
Et pour ce mouvement de la mer pour ta vie
Qui ressemble à la mer qui monte me noyer

Je t’aime pour ton ventre où je vais te chercher
Quand tu cherches des yeux la nuit qui se balance
À mon creux qui te creuse et d’où ma vie blessée
Coule comme un torrent dans le bruit du silence

Je t’aime pour ta vigne où vendangent des fées
Et pour cette clairière où j’éclaire ma route
Qui balisent tes cris durs comme deux galets
Que le flot de la nuit roule sur ma déroute

Je t’aime pour le sel qui tache ta vertu
Et qui fait un champ d’ombre où ma bouche repose
Pour ce je ne sais quoi dont ma lèvre têtue
S’entête à recouvrer le sens et puis la cause

Je t’aime pour ta gueule ouverte sur la nuit
Quand ta sève montant comme du fond des ères
Bouillonne dans son ventre et que je te maudis
D’être à la fois ma sœur mon ange et ma Lumière


Léo Ferré (1971)

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