segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Pérolas ou diamantes?




Uma noite perguntaste-me se tinhas escrito: pérolas ou diamantes… já não sei o que respondi. O que sei é pouco, cada vez menos… mas hoje, ao organizar a colectânea de poesia, sei que só ela é voragem no diamante da tua alma e nas pérolas azuladas depositadas por engano no teu coração. São pedras rudes e cruéis que te habitam o ser, eivado de quem nunca amou ninguém. Ainda podes tentar, sobrevoar o velho continente, onde a minha sombra é a tua única passagem.

É a dor que acende as palavras ao vento, na confluência da mais estranha forma de sentir. Mordeste-me a alma, e eu a tua eternidade…

Gostava de ter escrito este poema para “ele”, por entre os estilhaços, dispersos na noite escura.

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Trocáramos as cartas do começo – alegrias tão
frágeis, mas tão fundas, de quem mal se conhece
e já se ama; todo um inverno, diante das palavras,
o movimento dos pássaros no interior dos olhos,
o lume das estrelas na ponta dos dedos. De um

encontro tão breve é sempre fácil esquecer o que
nunca se viu. E, nessa tarde, enquanto te escutava,
soube que a memória era um espelho partido –

porque ler-te era uma coisa, mas ouvir-te era outra; e
o rosto que espreitara do papel fora eu que o desenhara;
e a assinatura ao fundo da página era o nome de uma
outra vida que eu tecera – como se na tua boca,

nesse tempo, falassem duas vozes desencontradas.



Maria do Rosário Pedreira, in “Nenhum Nome Depois” [2004]

1 comentário:

Anónimo disse...

Pelo pouco que te conheço, escreves com o coração. Parabéns!
Cumpts.
António Coelho