terça-feira, 12 de agosto de 2008

Inversão do Momento Certo


I

Escutar o seu silêncio como um doce rumor, senti-lo como prova incondicional e culminante duma loucura escalada nas pedras vertidas, na densidade dum nevoeiro quase intra-telúrico, e perceber os momentos desencantados pelos quais passámos.
Momentos torrenciais, sem contornos reais, momentos esdrúxulos, momentos embutidos nas pedras lançadas, fugindo à nossa verdade ancestral.

Escutar o seu silêncio é reaprender tudo, outra vez, neste acontecer abrupto, nesta espera transbordante, de tudo e nada, neste desenraizamento de raízes suspensas, como velhos jardins medievais, onde nos reencontrámos.

Escutar o seu silêncio, entre as duas quintas: a da “Boa Viagem” e das “Três Musas”, é entender que o sonho que sonhámos há muito tempo, está hoje a ser reescrito, na pedra bruta que lhe devolvi, quando choveram pedras polidas, em Agosto
...em Sintra..., agora que as pedras não provocam mais estilhaços à sua passagem encerrada, temos o céu à nossa espera, aprendendo assim, a escutar o silêncio, integrando as suturas que esta guerra nos causou. Tecemos uma nova forma de amar, que só nós conhecemos.

Escutar o seu silêncio, é saber esperar por “ele”, para além do infinito que, também ele, pode ser sempre superado.

II

No sonho premonitório da adolescência, estavam retratadas as “Três Musas”, num tempo sem-tempo, próximo da nascente do acto criativo, onde o “Monge” se inspirou...
... o entendimento consciente, que a Polímnia provocou a inversão do momento certo, como uma fuga de lava ardente...

Numa outra vida foi (re)visitado pela Érato, Melpômene e Tália.
Nesta vida, (re)encontrou Terpsícore, Clio e Polímnia.
Na sua próxima vida (re)conhecerá Calíope, Euterpe e Urânia.

...a inversão do momento certo, o acerto do tempo errado dos homens e do tempo certo dos Deuses...


III

Numa vila romana a 5 km de Monforte, designadamente em Torre de Palma, está exposto "O MOSAICO DAS MUSAS", (foto 1) da época romana, século IV d.C.
É simplesmente magistral este mosaico suspenso em pedra calcária, mármore policrome e vidro policromático. Talvez seja a mesma pedra atirada a matar… a fuga do real…
Curiosamente, no referido painel, a ordem (da esquerda para a direita) das Musas difere da sua cronologia, sendo a seguinte: Calíope, Euterpe, Érato, Tália, Melpômene, Clio, Urânia, Polímnia e Terpsícore.

Faz sentido... para quem o sabe entender...


CALÍOPE: Musa da Poesia Épica
CLIO : Musa da História
POLÍMNIA: Musa da Poesia Sagrada
EUTERPE: Musa da Música
TERPSÍCORE: Musa da Dança
ÉRATO: Musa da Poesia Lírica
MELPÔMENE: Musa da Tragédia
TÁLIA: Musa da Comédia
URÂNIA: Musa da Astronomia


IV

O POETA SÁBIO

É sábio hábil arguto informado
Porém quando ele escreve
As Ménades não dançam


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Musa" – 3º andamento [1994]

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