quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Há vinte anos... atrás.



Algo aconteceu na minha vida, que foi drasticamente interrompido… pela fuga empedernida, da nossa estranha história de Amor. Alguém tentou matar-me à pedrada, à patada (Marte na Casa XII- casa kármica), mas continuo a dar a minha vida por “ele”, o ser que promovi de Anjo a Deus da Crueldade. Começo agora a perceber que tudo isto tinha que acontecer, foi a libertação do nosso karma, que sempre nos impediu de dar o derradeiro passo na direcção do infinito. Sempre o amei, por isso escondia-me, fugia, fingia não olhar para os olhos que me olhavam com veios de sal e de azul, a tocar a eternidade.
O Amor é Azul…

As pedras sombreavam o meu sentir… “ele” temeu o que eu sentia, teve medo deste Amor que assumi naquela noite… ajoelhamo-nos diante de Deus, frente a frente num despojamento total. Abrir o coração e esperar sete dias e sete noites pela terceira traição, sempre com a mesma mulher… mas esta foi a última vez! Ficou o eco que será entoado na canção já composta… em segredo, que eu já ouvi, em sonhos ancestrais já a tocas-te para mim... só para mim. Olhei o dedilhar dos teus dedos, na viola do passarinho, fingindo não olhar, fingindo não sentir...

Desenhei o nome “dele” no veludo azul da areia naquela noite de Março, mas Março vai regressar, sempre antes do Abril. Antes de se amar em Liberdade, ama-se no enclave do sangue que rasga anarquicamente, o rio de margens cortadas que tinha de ser reconhecido pela dor. A dor tem (teve?) um sentido. Hoje, só lhe posso agradecer por me ter tentado matar…

… sim, fui eu que pedi que “ele” me matasse, mas as pedras não me acertaram, uma passou a menos de um metro da minha cabeça, no parque de estacionamento do supermercado. Uma simples moça assistiu a tudo… Numa tarde de Domingo, dum qualquer mês de Maio, a minha viatura foi espatifada à patada, tive uma pedra calcária e cúbica da calçada junto da minha cabeça… “Ele” disse que me abria a cabeça ao meio… eu fiquei à espera, mas “ele” não concretizou a sua ameaça.

Mas a prosa de hoje, é uma homenagem ao Sr. Francisco… Fez esta semana 20 anos do incêndio do Chiado, e o "flash-back" da minha vida em celulóide, duas décadas depois tem todo o sentido. O ano de 1988 em que estudava sociologia, e todos os dias me cruzava com o Prof. Hermano Saraiva, pois o curso de história era leccionado nas mesmas instalações que o de sociologia. Aborreci-me com os cálculos estatísticos e no ano seguinte, entrei em Direito…

Nesse ano de 1988 assisti ao incêndio do Chiado, no 11º andar, da torre 2 das Amoreiras, onde trabalhava como secretária de administração… A velha “Setmar”, a velha “Maritimus”, que hoje já não existem. As saudades do Dr. Pinto da Fonseca, do Engº Adelino Moura… e muitos mais a quem agradeço por terem existido, pois nenhum deles já está neste mundo dos ditos vivos. Aquele escritório marcou a minha vida, o convite para trabalhar na “Radiogeste”, dois pisos abaixo ou acima, já não me recordo, que recusei… O Dr. Pinto da Fonseca foi um dos homens que conheci com um coração enorme, que ensinei a trabalhar com o telex computorizado, pois ele só se entendia com telex de fita perfurada. O fax estava a surgir nesse tempo, a internet ninguém sabia o que era. As maratonas em directo com o presidente Eduardo dos Santos, nas quais eu receava enganar-me e não carregar na tecla certa do telex, os negócios com Angola, com a Mauritânia… O Monsieur Béchir, com quem tinha que conversar em francês longas horas… pois ele não desandava enquanto não lhe pagassem os milhões dos barcos construídos para a frota pesqueira da Mauritânia. Talvez por isso, assisti em directo à saúde do Dr. Pinto da Fonseca cair a pique nos últimos anos da sua sumptuosa vida… Os risos, em tom de chacota do Engº Tomás Taveira, grande amigo do Dr. Pinto da Fonseca, a torre 3 e os escândalos das manchetes de todos os jornais e revistas... Já ninguém se recorda da "Elite", a revista que publicou as fotos do Sr. Engenheiro... Taveira.

Pois o ano de 1988… para além da vida profissional, tinha a minha vida pessoal da qual não quero falar, mas lembro-me do Sr. Francisco, velho pescador de SAGRES, a minha terra de adopção, que me ensinou muito da vida e do MAR… O Sr. Francisco, nunca soube ler, nem escrever… por isso nunca poderá ler o que acabei de escrever. As noites na pesca da candeia, o mar profundo e revolto de SAGRES. O meu companheiro desse tempo, com quem acabaria por casar uns anos depois, muito aborrecido por estar na casa do Sr. Francisco, preferia os bons hotéis de Vilamoura... (quem tudo quer tudo perde... a bancarrota é a sua evidência), e eu recatada e encantada com a simplicidade dum pescador que muito me ensinou… há 20 anos atrás…

Obrigado Sr. Francisco…


"...aos dezanove noite fora, e aos vinte contra a lei..."


O prazer que sinto vinte anos depois, uma nova consciência quase a tocar o limiar deste Amor... é por ti ou por "ele" que sobrevivi nesta guerra sem sentido... entre nós não há partes, não pode existir processo técnico-judicial, os "nós" e os "laços" são nossos...

A verdadeira história ainda está por contar, e por escrever... mas dessa ninguém vai querer saber... escreve a ficção da história que só eu posso escrever.

Às vezes só espero uma palavra tua, mesmo sendo essa palavra o silêncio audível...


Onde quer que o encontres

Onde quer que o encontres -
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de
uma árvore, na pele de um muro,
no ar que atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobre o meu corpo - é teu,

para sempre, o meu nome.


Maria do Rosário Pedreira, in "Nenhum Nome Depois" [2004]


Foto 1: Sr. Francisco (no seu velho barco em Sagres há 20 anos atrás...)

Foto 2: Eu, na casa do Sr. Francisco, a brincar com o meu gato... 20 anos depois acusaram-me de andar a matar gatos e assaltar carros em plena noite... nunca percebi onde foi engendrada esta história que fez caixas de revistas baratas que te ficaram a matar... este é o momento de entenderes quem "tramou" esta cilada contra nós, na mais pura inocência, não foi a mulher da traição... foi a miudita inocente... a tal que assistiu às pedradas falhadas e em directo, um filme que nunca entenderá, pois esta história é tua e minha... as restantes personagens são secundárias.

1 comentário:

Anónimo disse...

Tens que ver as telas novas e parabéns pelos teus textos.
Bjs
Gaby