sexta-feira, 29 de agosto de 2008

As tuas mãos.




As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada


Al Berto, in "O Livro dos Regressos" [1989]



No tear imaginado dos teus dedos
gastei as mãos. Chamei-te, a ferir os
lábios com o teu nome, contra as
paredes do quarto desterrado. Quis-te

ainda quando a morte era já uma
transparência, lente invisível para o
escândalo. Mas então era tarde de

mais: devia ter-te seguido aonde ias,
sem perguntas, na primeira manhã.



Maria do Rosário Pedreira, in "Nenhum Nome Depois" [2004]



"A poesia não se cala...
...nas tuas mãos"

1 comentário:

Anónimo disse...

Já cá estou em Lisboa, temos muito que "parlar".
Bj
Nuno