terça-feira, 8 de julho de 2008

Musa... Secreta.


Pensei em ti, nos recortes dissonantes do teu rosto, nos dissabores com sabor amargo dum processo emocional, muito mais que judicial, do nosso reencontro nas veredas dos estilhaços de nós, nos laços amarrados das têmporas do esquecimento… dos momentos nossos, só nossos que não oferecemos a ninguém, ninguém sabe da magia dos eternos momentos que vivemos, que sentimos, os momentos que ficaram delineados para além da morte… segue-te na linha do real… sigo-te na curva da estrada…

O som do teu olhar, o dilema entre a “persona” e a “alma”, esta vida diligente onde a cobardia impera, num falso império, a vontade imensa de partir para o outro lado, de vez… sem hesitar, voar sem pé, sem terra, voar por aí à procura de ti… de nós.

Sinto os laivos das réstias das palavras que escreves neste momento, sinto o que está a acontecer, sem expiar este plasma imenso de sentir-te em mim.

Sentir é o verbo de me dilacera, que molda uma das minhas últimas existências, a procura do sentir, não das correntes finitas do existencialismo… (re?)encontrei-te em mim, norteando o sul do sal do sentir, dos espelhos que denunciam o corte medieval do cavaleiro que me assolou, na velha praia… para além de...

(C) intra… nada jurámos, trespassámos a estupidez do juramento terreno da praia finita.

Afogámos a memória neste assombro de estátuas de pedra neolítica, neste naufrágio redentor deste Amor reencontrado no linear da morte, na tentativa de dissolver o céu e o inferno, num único compósito de substâncias neutras… o Amor é mortal, por isso, devolve-nos a vida. Sinto-te… dentro de mim.

Não nos enganámos!


[Nos breves 10 minutos em que escrevi, estas breves linhas de prosa, rodou neste 6º andar virado a Sul… “Quit (Don’t Say You Love Me”… do Young, que estará por aqui… esta semana… não digas que te Amo… os solos de guitarra, já os tocas-te para mim, vais voltar… eu sei, sinto…TE… promoção de Anjo a Deus da Crueldade…]

Don´t say you love me
That’s what you said
That’s what you said

M U S A… Secreta.

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Quando eu morrer

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti. Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas as saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Maria do Rosário Pedreira, in "O Canto do Vento nos Ciprestes", [2001]

Foto: Chris... Olhar inocente há 20 anos... se voltasse a ter 21 anos, cortava os pulsos por ti... só eu se porquê.

2 comentários:

Anónimo disse...

Palavras sábias, grande poema.
Bj
Nuno

Anónimo disse...

Obrigado amiga pela lição de vida que me deste. A pintura é a minha vida.
Gabi