quarta-feira, 25 de junho de 2008

Patti Smith




As palavras manifestam-se na língua em que são sentidas (água), talvez também pensadas (ar). Uma profunda ondulação, uma dança descalça, com mais ou menos tecnicidade, eleva o sentir até à folha branca. Qualquer tentativa de aterragem, retira-lhe o brilho negro, redonda anulação do tempo eterno onde se manifesta.

Os grandes poetas sentem o voo das palavras intrincadas, mescladas de cada sentir, ficam suspensos na voluptuosidade da queda, o lastro sublime insinua-se do outro lado do sentir…

É o verbo sentir que define a mais estranha forma de escrita: a poesia. Assim, os poetas rasgam o ritmo incerto, encontram na flutuação de cada som, as cores cegas de cada momento certo.

Todas as traduções de poesia são imperfeitas, pois são infiéis ao sentir, só quem sente sabe o céu ou o inferno (por vezes, estão próximos demais) por que passou.

É como um grande amor, é impossível esquecê-lo, não devemos tentar enganar o esquecimento…

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SONETO

e aquela noite. a branca eléctrica tempestade. o lado
em chamas. tu a dormires tão ruidosamente. os teus grandes ossos.
a testa macia. a tua pálida boca seca. a pele gretada do lábio a
escamar. limpá-la com dentes de precisão de ponta de agulha.
marcar e rolar num minuto uma bola translúcida
e cuspi-la contra o horizonte. pele. é tão
maravilhoso descascar-te as costas depois do verão. um perfeito
lençol de pele. observa atentamente a tatuagem alguma loira.
a tua espinha fóssil. a insalubre mancha oliva debaixo

a premir o véu de pele contra a minha cara. a chupar
um pouco de cada inspiração. um ferrão inunda as águas-furtadas
por baixo da pele. no crânio o tornado eléctrico.
chupando mais e mais a cada inspiração. a erecção da pele todos os símbolos
de uma felicidade. eu estava tão maravilhada tão tocada eu amei-te tanto.

Patti Smith, in "Witt" [1973]

Foto 1: Steven Sebring [1999]
Foto 2: Rob Dawson Moore [2000]
Foto 3: Chris [Lisboa: 28-10-2007]

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