sexta-feira, 9 de maio de 2008

Obrigado... PAI.





Esta é mais uma homenagem que faço ao meu Pai, em vida, sim os reconhecimentos de Amor, devem ser ditos e escritos em vida. Desconheço o momento a seguir, mas conheço o "Agora", reconheço-me, reconheço-te… e é para ti, que hoje escrevo.

O ser frio e distante, pelo qual me revelas-te o sentido do quente gelado da vida, o teu racionalismo doce e atroz…
A tua dificuldade em manipular os meios informáticos do presente, o teu medo de não ter dinheiro no final do mês para pagar uma renda de casa, inferior a 1.000$00 (hoje menos de 5,00 €uros), a tua luta diária por minha causa, a tua única filha, fruto dum grande Amor, com a mulher mais bela que conheci: a minha Mãe

... por acaso, do destino (será?) não foi nos anos 50 para os E.U.A. com o famoso realizador de cinema que se apaixonou por “ELA”, mas "ELA" ficou contigo… o homem que “ELA” sempre amou. Abdicou de tudo por ti, por isso partiu há quase 20 anos. Mas eu ainda aqui estou a cuidar de ti…

Se a Mãe tivesse partido no final da década de 50 para a América do Norte, hoje eu não estava aqui, a Mãe podia ter sido uma grande actriz, como sempre sonhou. Recusou o convite e não apanhou o avião com o conceituado realizador de cinema... por um grande Amor, por ti pai, que nunca a levarias para os "States", só a podias levar a passear no velho Citroën, até Sintra (hoje sei por que "Ela" te pediu para passarem a Lua de Mel em Sintra...) ou até à Ericeira, na melhor das hipóteses até ao "Al-Garve"... a viagem demorava uma eternidade...

Vou relembrar os anos de 1958/59, estava eu num qualquer lugar incerto do Universo, e tu andavas nas “engenharias” da Barragem do Arade, em Odiáxere. As tuas memórias fazem parte de mim, mesmo antes de me conceberes... Somos tão diferentes, mas parecidos demais.

Nunca fomos ricos, o avô e a avó trabalhavam 18 horas por dia, para políticos e artistas, que nunca pagaram as contas, dos sumptuosos fatos completos que o mais brilhante alfaiate de Lisboa traçava o traço incerto, na velha alfaitaria do velho largo do Carmo, junto ao velho quartel do Carmo... o avô dizia que era italiano-espanhol: Romano Valério Fernandez.

Todos os dias me lembro do olhar dele a fitar o giz branco, a delinear as fazendas, os tecidos, as linhas brancas a servirem de alinhavos premonitórios, à sua forma sublime de criar o corte perfeito para corpos imperfeitos, da tesoura enorme e pesada de alfaiate. Lembro-me da primeira vez que a segurei, era mais pesada e maior do que eu, tinha eu uns 5 ou 6 anos... Estavas sempre com medo que eu me magoasse, o teu medo concretizou-se quase 35 anos depois, a tua filha magoou-se, não foi a tesoura do avô… foi bem pior…

Não é por mim que hoje escrevo, é por ti… dos tempos que viveste na “Pensão Caravela”, em Lagos, junto do Zeca, que também estava hospedado na mesma pensão, a única que existia em Lagos, ainda longe dos turistas ingleses, do nosso Algarve daquele tempo, hoje sita na Avenida 25 de Abril, nos anos 50 ninguém sabia que aquela pequena Avenida em Lagos, seria um dia designada de 25 de Abril... será que foi premonição, ou monição sem "pré" da Vida... Talvez...
Das conversas que tiveste com o Zeca nesse final da década de 50, que conheço sem nunca ter conhecido pessoalmente, um dos homens mais importantes da cultura mundial, deixo aqui a minha homenagem, a ti PAI e ao Zeca. Conheço a obra do Zeca para além da que foi editada, conheço as histórias que me contaste desse tempo, em que ele era professor de Francês no Liceu... Dos tempos difíceis que se viviam... Lembro-me do Natal de 1971, tinha eu 5 anos, da tua alegria ao chegares a casa com uns discos de vinil debaixo do braço, um deles era do Zeca: "Cantigas de Maio". Naquele tempo, não percebi o brilho dos teus olhos, hoje entendo, mas há coisas que "desentendi"... como o sentido da vida e do Amor...

"Não há bandeira sem luta, não há luta sem batalha..."
Zeca, in "Teresa Torga" [1976].


Tinhas e tens menos um ano que o Zeca… tu ainda estás perto de mim, a contar-me as histórias desse tempo… Lagos e Sagres no final dos anos 50… Foi no final dos anos 80 que voltei a esse eixo mágico entre Lagos e Sagres, junto do homem que me amava, mas que nunca consegui amar… o Amor não se escolhe, acontece… Se todos pudéssemos percorrer a estrada do livre arbítrio, as linhas (alinhaves de alfaiate…) que definem o Amor...

Obrigado, Pai…


ZECA: 2-8-1929 (Aveiro) - 23-2-1987 (Setúbal)
P A I: 12-6-1930 (Lisboa)- … desculpa Pai…




Os Índios da Meia-Praia

"Aldeia da Meia Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Montegordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha à ré

Quando os teus olhos tropeçam
No voo de uma gaivota
Em vez de peixe vê peças de oiro
Caindo na lota

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te nudo
Chupam-te até ao tutano
Levam-te o couro cabeludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De enganar a burguesia

Adeus disse a Montegordo
Nada o prende ao mal passado
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
quem diz o contrário é tolo

E se a má língua não cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar para trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Que diz o contrário é tolo

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada"


JOSÉ AFONSO, in “Com as Minhas Tamanquinhas” [1976]

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