segunda-feira, 19 de maio de 2008

O Minuto Certo


Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os meus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que eu era a tua fantasia, o teu banco de trás. O desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.
Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam charros e putas e atirarem pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses.
Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sono do sonho ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim. Queria de ti um minuto. Um minuto.

Filipa Leal [2007]


Esta noite não dormi, envolta nas farpas da tua crueldade. No momento certo em que li este texto, senti outra vez o teu cheiro, o teu olhar a inundar o meu ser, as linhas desalinhadas das tuas mãos, a desarmonia das tuas pernas, os teus braços a agarrem-me por trás, a tua voz a verbalizar palavras que não entendo, as farripas sibilantes da tua barba por fazer… Mais do que as cicatrizes que te recortam a pele, são as costuras cosidas a sangue e suor que te definem nesta estranha indefinição em que ainda vivemos. Mas não estavas no meu quarto, na minha cama, estavas dentro de outra mulher que dizes ser eu... O corpo é meu, a alma é dela. Não entendo o rio de palavras surdas que me sussurras por dentro, como se a distância física de 33 quilómetros fosse a denúncia da (pre)monição da nossa história.
Como se estivéssemos a assistir às ondas sucessivas vindas do centro do terramoto em que nos insurgimos, já sem sustentação real e legal. Temos tudo para tentar uma única vez tocar a felicidade, mas não tentamos...
Agudizei a minha voz, agonizei as curvas que percorrem o meu lastro, a sombra que dizes ser tua, fiz-me passar por louca, para que não me reconhecesses. Construi heterónimos, estranhas personagens, conspirações inexistentes, decalques colados de sonhos ancestrais, mas agora só eu estou aqui. Tudo se esvai da água, as poeiras, as turvações, as ondulações... Só ela fica, completamente só, por opção, observando as margens dos rios, a linha crepitante entre a terra e o mar, as pedras compostas como notas, que por vezes circundam os lagos.
Na fronteira do real, o teu sorriso cada vez mais teu, cada vez mais longe da linha sarcástica desse fogo umbilical que ainda arde em ti, diz-me, que devo deixar o jogo da provocação serpenteante e tentar a impossibilidade do nosso Amor. Nem todos os amores são impossíveis, entre os juízos de probabilidade e de possibilidade, tudo de define.
Todos os meus actos encenados foram para te matar em mim. Mas não te matei, agora quero puxar-te de novo para a vida, quero ser o sangue renovador das tuas veias, o tempo e o momento que o céu tem guardado para nós… O Azul infinito que é nosso...
Agora és tu que esperas por mim.
Agora, mais do que sentir... sei.


Chris [19-5-2008]

2 comentários:

Anónimo disse...

Gostei do teu azul infinito.
Espero que a exposição seja um suceeso.
Bjs
Gabi

Anónimo disse...

Eh lá matadora!
Parabéns pela exposição, estavas deslumbrante, como sempre.
beijo
João