terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Possivelmente


I
Possivelmente
Vou aproveitar os vitrais esfarrapados da lua
e atravessar a nudez do gozo;
do gozo
a deslizar por entre os pés de pedra do silêncio estilhaçado
e a criar sem misticismos
a denúncia duma deusa
esmagada como uma mulher vulgar
numa manhã inquieta:
- onde o fim será o começo do mar

nos alçapões das horas
por onde circulam feridas cobardes
e cabelos risonhos
tento inutilizar as palavras acres
e enlaçar os olhos sujos
nas portas eivadas de fantasmas
de tanto imaginar
formam-se em redor de mim
labaredas reflectindo o espanto
das mulheres que sonham alto
e têm bocas viris reais

II
Digo. Digo que há mais tempo
para inventar, afirmo:
os cães escorregam pintados de bolor
entre o bafo das paredes e a sombra
das suas entranhas apunhaladas;
os poetas penetram nas lágrimas do vento
e sugam-nas para que nas suas mentes
deslizem poemas que não sejam secretos;
e as flores - até as flores - claudicam
ante as filas das lembranças perfumadas
que golpeiam a disciplina dos cemitérios
empedrados de silêncio

III
Possivelmente
não haverá: lua --- gozo --- silêncio
não criarei: uma denúncia --- uma manhã
e não haverá o mar

António Brito Figueirôa, in "Função Ambígua do Ser" [1979]
(poeta madeirense nascido em Janeiro 1955)

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