terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Cristo do Garajau






Uns fazem balanços, outros balancetes, talvez baloiços e balancés, duma vida vazia de sentido, sem a revelação da intenção de estar encarnado, sem nunca entenderem a dimensão mais subtil da criação e do coração.

Final do ano a transitar para outro ano, tempo inventado pelos homens, foi um tempo que reaprendi o sentido da palavra CRUELDADE, a grande revelação que a vida me guardou, depois do amor e da dor. Há coisas que ainda não entendo, talvez já não as queira entender, como a cobardia de quem trai um grande amor, da forma mais displicente, como se duma tarefa quotidiana se tratasse. Aprendi, que o desconhecimento do amor, leva um ser às tentativas mais bizarras de desistência, esquecendo-se (pois, nunca amou ninguém...) que o Amor é eterno, não vive num tempo de disfarces, um tempo tecendo o medo desse mesmo amor, inventando reinos e feudos de impérios inexistentes, transfigurando-se em vítima da sua sombra, mergulhada numa bolha que engana o exterior, não a alma que sente. Pois, essa nunca se engana, só ela reconhce o verdadeiro amor, tudo o resto são jogos do ego, estratégias de defesa e de ataque, remoinhos de raiva, feitiços quase carnavalescos, engodos de puro engano.
Perder o medo de amar pode levar tempo, por vezes vidas, só assumi esse nó existencial, há pouco mais de dois anos, por isso, sei que leva muito tempo, tempo que agora já conheço, e ele conhece-me...

A dinâmica de qualquer fogo primordial revela-se sempre em trígonos, o fogo operativo dança nas chamas purificadoras da água, pois só ela o pode religar ao divino. Mas entre o fogo e a água existe um tempo incerto que ficou guardado. A água é o único elemento que liga a terra ao céu, esse é o meu curso natural de ascensão. Sente-se pela água, não pelo fogo, esta é a aprendizagem que ainda lhe falta fazer...

Existem locais neste pequeno planeta, profusos, profundos, onde qualquer adjectivação é mera redundância de palavras. Num desses locais mágicos, foi erguido em 1927, o Cristo do Garajau, situado na costa sul da Ilha da Madeira, mais precisamente na freguesia do Caniço de Baixo, junto a Santa Cruz. O figura do Cristo do Garajau é imponente pelo seu porte grandioso, flexível nas aves que poisam na construção de pedra intensa.

Christian Galko, um conceituado engenheiro austríaco, especialista em radioestesia, está a elaborar um estudo científico, relativo à confluência de energias que se manifestam naquele local, e a sua importância na renovação energética dos sete chakras.

A rendição dos braços abertos, o olhar erguido à imensidão do horizonte, de quem mudou para sempre essa linha, criando-lhe um lastro infinito, representa o eixo evolutivo horizontal: a linha que caminha do descendente para o ascendente, de leste para oeste. Dizem que é para oeste o melhor caminho… talvez. A linha vertical que liga a terra ao céu, representa o eixo do caminho para a luz, para a consciência, de Sul para Norte, do fundo do céu até ao meio-do-céu…
Talvez, "ele" com Saturno a três graus de Escorpião, na casa IX… no meio-do-céu…
Eu, talvez com a Lua a vinte e nove graus de Capricórnio, a entrar em Aquário, na casa IX… no meio-do-céu…

Enquanto escrevia este texto, passou numa rádio distante do outro lado do meu escritório, a notícia da ocorrência dum abalo sísmico, com a magnitude de 3,00 da escala de Richter, muito perto do Cristo do Garajau… talvez seja mais uma coincidência, para quem continua a escrever rios de palha, sem a capacidade de comunicar o seu amor, duma forma mais fidedigna, talvez ainda acredite em coincidências, eu já não acredito nelas, nas coincidências, claro…

Dos milhares de acontecimentos e descobertas, que este ano de 2008 me guardou e segredou, uma delas foi a descoberta da poesia de Maria do Rosário Pedreira, gostava de escrever assim para “ele”, mas ando a escrever outras coisas, talvez a serem reveladas em 2009...


Nunca te esqueci – é este um amor maior
que atravessa a vida e resiste à cicatriz
do tempo. O que ontem me disseste agora
o ouço, como se nada tivesse interrompido
a magia do instante em que as nossas bocas
se aguardavam na distância de um beijo e
o olhar tocava o corpo antes da mão. Se

hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja
lombada acariciei todos os dias que durou a tua
ausência como uma nesga de sol acaricia um
rosto no inverno), encontrarás a sopa a fumegar
na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os
lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto
para qualquer aventura – e ainda o cão deitado
à porta, à tua espera, como na véspera de partires.

Porque os anos não contam para quem assim ama.



Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2001]



Imagem 1 e 2: Cristo do Garajau
Imagem 3 e 4: Meio do Céu (de duas matrizes energéticas, ainda desentendidas)

domingo, 28 de dezembro de 2008

A pele serve de céu ao coração

























A pele serve de céu ao coração…
É assim que tenho evitado o pior,
O melhor onde ainda habita
A cor da crueldade feroz
O tempo recortado no mesmo local
Vinte anos depois
Para os lados de Sintra…
A permissão do tempo, a chave reencontrada
Um segredo transmissível
Guardado no aviso das águas,
No eco da paisagem interrompida
Do azul negro guardado…


Para uma mulher que acreditou no amor para além dos limites que a vida lhe impôs, abdicou de quase tudo por esse amor, a história está a ser escrita vinte anos depois da sua morte.
Uma homenagem à vida que me deixou, à eternidade reencontrada em Sintra…



Em Sintra

As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros

Luís Miguel Nava (*), in “Películas” [1979]
(*) Nasceu em 1957, em Viseu e foi assassinado em Bruxelas em 1995…


O Céu

Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.


Luís Miguel Nava, in “Como Alguém Disse” [1982]



Sem Outro Intuito

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava, in “Vulcão” [1994]


Foto 1: José Boldt
Foto 2: José Boldt - Vidro Partido, Sintra [2006]
Foto 3: Eu e a minha mãe, Sintra... [1969]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Natal 1968



A crueldade existe definitivamente. Esta foi a semana que estive muito perto de matar alguém, pois alguém ultrapassou todos os limites, da sua própria devastação mental. As palavras encalham em tamanha monstruosidade…

Mas, existe sempre o outro lado, o lado dos meus momentos de felicidade, e este Natal tive muitos, junto de quem amo e de quem me ama, longe, muito longe do Deus da Crueldade…
a verdade nunca se engana, pois é perfeita...

**************************************************

Pedra de Doçura

Cada poema de Natal
é uma pedra de doçura
guardada na mente duma criança.

Tudo o mais
- as palavras e os punhais –
perde-se na esperança.

José António Gonçalves, in “Lembro-me desses Natais” [2000]


Foto 1: No Douro...
Foto 2: Natal de 1968: eu e o meu pai. Passados 40 anos continuamos iguais...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Entre o perceber e o entender...




As palavras que se seguem não são minhas, ou talvez o sejam...
Alguém me segradou ao ouvido
No eco do coração implodido
No som do meu coração que já explodiu
Nos erros, nas culpas sem associação,
foi assim,
que "alguém" me segredou estas palavras:
matar-te é pouco, quero mais,
mais demais...


"Entre o perceber e o entender
Entre a fibra e o algodão
Entre o real e o coração
Entre o norte e o sul

Entre a morte e a vida
Entre o reparar e o olhar
Entre a tentativa e o tentar
Entre a terra e o céu

Entre a cobardia e a dor
Entre a raiva e o amor
Entre as garras e o toque
Entre o sexo e a alma

Sentir-te… é assim
Sentir-te é o que resta de mim…

A pseudo intelectual que nunca o foi
A louca "lorcorniana"
A maluca "malthusiana"
A psicopata "pessoniana"
A obsessiva "obtusiana"
A perseguidora "persiniana"

M u s a … mais de mais
Quase tudo foi dito
Na voz, no movimento
No olhar
Na anestesia...
Nas reticências que re-conheço

Na morte, onde já morremos
Na terra que já não queremos
Na vida que ainda vivemos

És tu…

O sulco novo das minhas rugas
Nos brancos irradiados
Na dor dos ossos, no pó do éter
Na carne a desaparecer

A alma que me devora
O eterno momento
Da nossa eternidade
Nas horas… sem ti

Entre Baudelaire e Ferré
Entre a morte e a vida
Entre o corpus e o animus
Entre a pele e as estranhas

Amadureci o teu ser
Os movimentos re-iniciáticos
O arrastar do corpo
O elevar da alma

Entre o teu olhar e o meu
Renasce a impossibilidade
Dum amor possível
Inadmissível perante os falsos doutos
Aceite perante os dignos celti-desoutos

A guarda conjunta
Do amor des-conjunto

A tua voz primeiro
O teu olhar depois
As tuas mãos no após
Do momento a seguir...

A incomunicabilidade
Dos Deuses
A comunicabilidade dos anexos
Dos pequenos seres
Dos egos reduzidos
Mergulhados fora de si
Na oitava a seguir
Na oitava casa

O rei-ki nas tuas mãos
O movimento do teu corpo
Esse segredo onde te re-iniciei
O tempo dum Amor
Mera proposta acusativa

Como um masoquista dormente
Nas longas horas sem descanso
Entre o Amor… e a Dor...
A mais alta frequência do ser
O estranho crepitar das brasas
Dum novo amanhecer...

No éter que tento
Na maturação do tempo…
Daquilo que não posso ainda
Dizer…

Sentir o coração que bate a meu lado
Sem o conhecer
Conhecendo-te
Reconhecendo-te
No olhar
Na noite que foi nossa

Querendo-te
No gerúndio
Tendo-te
Aqui

O infinito que ganhei
Nas tuas mãos,
Nos teus olhos,
No corpo que ainda sinto
Dentro de mim

Na alma única
Que foi nossa
Só nossa
De mais demais…

O acto da criação
Nasce duma fonte
Entre a terra e o céu

Entre o rio e o mar
Entre o doce e salgado
Entre o aconchego
E a depravação
Da dor onde vive a nossa
Prisão: tem-plo dum Amor

Nunca amei ninguém
Foi por isso que re-aconteceu
A nossa história?
Sempre te amei
Onde estará Plutão?
Casa VII, Casa VIII
A casa VIII é a minha casa
A porta oculta escorpiónica

Re-ensinei-te a re-tocar
As almas
Essa foi a melhor prenda de Jesus
O melhor ensinamento que Cristo
Me ofereu num tempo de Orfeu

No lastro da diferença
De Nós
Nos Laços
Talvez…"


Imagens: ...repetidas neste espaço incerto, neste tempo certo...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Esta tarde, percebi...




Neste quase início de Inverno, laivos solarengos inundavam a baixa lisboeta, como os traços que o destino tece, nos recantos dormentes da memória. Demorei mais de sessenta minutos no percurso entre o Marquês de Pombal e a Rua Victor Cordon, semáforos mutantes, automóveis imóveis, gente e mais gente. Como não tinha hora marcada para chegar ao local pretendido, reencontrei o valor das pequenas coisas, na observação pausada, que num ritmo normal de condução não é possível realizar. Sintonizar a frequência moldada no volume do tráfego, estranhos momentos na observação dos gestos, dos movimentos, dos olhares, das rugas tensas, do habitual frenesi citadino, que nesta época natalícia se acentua. Lisboa é cada vez mais uma cidade cosmopolita, onde se cruzam vários continentes, numa osmose cultural, quase sempre benéfica.

Dei comigo a pensar na diversidade da espécie humana, nos sonhos e nas preocupações de cada um… foram poucos os sorrisos que presenciei, muitos rostos perdidos e encerrados em si próprios (apesar das iluminações de Natal), nos passos trocados de uns, no tempo cristalizado em que quase todos vivem, no esquecimento do poder unitário do acto de estar vivo, no poder de transformação que o Amor tem, como um encontro iniciático...

Mais uma vez a rádio era o costume: conversas fúteis, futebol, politiquices e mariquices. Por isso, carreguei na tecla do leitor de cd's, e voltei a ouvir um dos discos que reencontrei do Chick Corea: "Where have I known you before - return to forever”… aquele Sol avermelhado da capa sempre me foi familiar, da primeira vez nesta vida que o voltei a reencontrar, como foram as outras vidas, do Amor... de hoje saber, que nunca se deixa de amar quem sempre se amou.
Do tempo que passou, do tempo que falta passar, do tempo certo, dos momentos de felicidade, de infelicidade, de alegria e de dor. Da conceptualização da teoria existencialista do tempo, com a qual não comungo.

Por breves momentos, quis partilhar com todos aqueles transeuntes tudo o que já vivi, e saber se tinha sido assim com eles. Se estão dispostos a fazer uma vénia à vida, agradecer a oportunidade única de estarem encarnados (mesmo os que ainda estão numa primeira vida), e entender o silêncio comunicante, o espaço táctil onde confluem sentimentos, e todas as imposições que a vida nos submete, até a aprendizagem dum novo conceito de crueldade...

Esta tarde percebi o quanto já fui feliz, e hoje sei que quanto maior é o momento de felicidade, maior é a dor que a acompanha por dentro, só que nesse momento não temos a consciência da divisão do mundo material, e por maior que seja a tentativa de juntar e colar os estilhaços, pintar com a mais nobre tinta a “estatueta” quebrada, por mais que a envernizemos com o verniz mais brilhante, ela nunca mais será a mesma. Os cacos unidos, e nem sempre reencontrados, mesmo depois de colados, dificilmente devolvem o olhar inicial, pois só a dor o aprofunda para uma dimensão maior.

Agradeci ao meu “Mestre”, por me ter deixado sozinha no meio dum mar imenso, com vagas assombrosas, sem conseguir vislumbrar a praia, talvez tivesse sido a prenda cruel desejada por mim. Fui eu que procurei destruir este Amor, fui eu que tentei deixar de amar, fui eu a causa da minha própria causa...

esta tarde, percebi que o seu último (?) beijo continha o veneno, da traição que me prometera no velho sonho, sete dias e sete noites depois…

esta tarde, percebi que as vagas do vento norte se transformaram num mar brando de sueste, num suave caminhar para a velha praia, onde talvez, ele me espere...

esta tarde, percebi que apesar de não conseguir ainda vislumbrar a praia, sei que estou na rota certa, o retorno à casa do Pai…

esta tarde, percebi que os seus braços encerram todo Universo, na libertação infinita quando me acolhem, em diversos modos e tempos verbais...

esta tarde, percebi…



***************************************************


Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

Se me abraçares, não partas.



Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2001]


Imagem 1 e 2: Telas de Jú Novais

Imagem 2: Eu... no dia do meu casamento a 19 Dezembro de 1997.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Qual é a cor do Amor?





O enclave em que se encontra o poder judicial, neste tempo desentendido pelos homens, neste barquinho à deriva, onde cada um rema para o ponto cardeal que lhe é mais conveniente, parece ser um autêntico brocado sem o mínimo ponto reluzente, sem o brilho do olhar do meu Amor, como deveria ser apanágio da dita justiça, mas nem “justicinha” consegue ser.

O motivo que me fez abandonar há mais de vinte anos, as lides, primeiro da psicologia, depois da sociologia e apanhar o navio (como num filme de Fellini) na minha profunda ingenuidade, foi um acontecimento a tocar o impensável da barbárie que assisti... Foi esse facto real, que me fez tentar perceber o porquê da existência do outro lado da injustiça, que nunca é a justiça.
Passaram-se mais de vinte anos: se algo mudou nos contornos latentes, os meandros do sistema estão cada vez mais dissonantes.

Sempre repudiei qualquer forma de corporativismo, mas ele não pára de aumentar em sectores fulcrais da sociedade. Na obra “O Espírito das Leis” (1748), do filósofo e político Montesquieu, que foi um seguidor de John Locke, desenvolveu a teoria da separação dos poderes: executivo, legislativo e judicial. Cada vez assistimos mais à fusão destes poderes, por mais que nos digam que não é assim.

Numa semana em que se falou tanto de direitos humanos, a propósito do 60º aniversário da "Declaração Universal dos Direitos do Homem", com muitas conferências, sessões e reuniões aqui e ali, esquecemos a rama da questão. Olhamos para o cume da montanha, com os seus princípios gerais estruturantes bem redigidos, cheios de boas intenções, mas esquecemo-nos da base, daquilo que toca o cidadão diariamente.

A justiça não é (nunca o foi, duvido que alguma vez o seja) para todos. Exemplos práticos abundam por aí, em casos mais ou menos mediáticos. O que me leva a escrever estas linhas é a minha incapacidade de entender o silêncio, quando se tem que falar dos senhores juizes. O carácter cada vez mais discricionário da aplicação do poder judicial, onde os senhores juízes, com o devido respeito, não se limitam a aplicar a lei, redigida pelos senhores legisladores. Quando essa redacção lhes dá a possibilidade de terem uma “margem de manobra” vasta demais, temos os senhores juízes a aplicar as leis segundo critérios cada vez mais subjectivos, pois lhes é dada essa possibilidade pelo legislador. A fusão de poderes é cada vez mais intencional, deliberada, ninguém vê, nem ouve nada...

O Estado (também ele corporativo), precisa de receitas cada vez mais elevadas para se auto-sustentar, e manter os vícios de alguns "senhores". Os tribunais não são excepção, como nesta matéria, nada tem um carácter excepcional, muito menos especial. Temos o código das custas judiciais, com “novas” alterações que entrarão em vigor a 5 de Janeiro do próximo ano, se entrararem em vigor, pois nestas coisas nunca se sabe nada, ou sabe-se muito pouco com é que vai funcionar. Quem se der ao trabalho de ler, o diploma legal (DL 34/2008), pode ler o “brilhante” artigo 8º, no capítulo II, referente à taxa de justiça, o seguinte:
1-“A taxa de justiça devida pela constituição como assistente é auto liquidada no montante de 1 UC, podendo ser corrigida, a final, pelo juiz, para um valor entre 1 UC e 10 UC, tendo em consideração o desfecho do processo e a concreta actividade processual do assistente.”
2-“… podendo ser corrigida, a final, pelo juiz para um valor entre 1 UC e 10 UC, tendo em consideração a utilidade prática da instrução na tramitação global do processo.”

Ninguém ainda sabe que considerações vão tecer os nossos prezados juízes, e qual o conceito determinado das expressões:

- concreta actividade processual do assistente.
- utilidade prática da instrução na tramitação global do processo.


Quanto à diferença entre 1 UC (unidade de conta) e 10 UC, todos entendemos o que isto quer dizer. Pois é...

Mas já nada me espanta… a aplicação de medidas de coacção completamente ilegais, redacções de conceitos indeterminados, como frequentar e permanecer... não sei o que isto é em termos jurídicos, parece que ninguém sabe... mas quanto a esta procissão, ainda vai no adro, onde provavelmente falecerá de morte natural.

Continuo a acreditar no Amor, um oceano imenso onde não existe a noção de culpa, e se ela existe é para ser descodificada aos poucos, pelos amantes, ou pelos interveniente no processo amoroso, tudo o resto, são eloquências circenses.

Ser advogado do Amor, na sua defesa, nunca na sua acusação. Como já escrevi, quem ama não acusa, pois a condenação e absolvição são meros expedientes processuais.
Defender o Amor, foi o "seu" pedido há muito tempo, num continente submerso que reconhecemos quando nos voltámos a (re)encontrar. O azul profundo embutido na água que tivémos medo de reconhecer como nossa...
Depois da crosta caír, existe uma pele nova a nascer todos os dias, muito longe das habilidades processuais, mais ou menos acrobatas.

O Amor reconhece-se no olhar de quem amamos...

*****************************************************


Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.

Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.

Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.

Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.



Natália Correia, in "O Livro dos Amantes - VII Soneto" [1955]

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Reflexões com e sem Saudade.














O eterno escritor dos afectos, do sentir feminino, da aceitação do sentir sem medos das raízes fortes, onde está cravada a fragilização humana, que acredito serem património de todos os seres, independentemente do sexo e do continente dos anjos.

Escreveu três livros que ficaram na minha memória: "Reflexões sobre Deus” (1971) e “Peregrinação Interior II - O Anjo da Esperança” (1982). Foram leituras inovadoras e difíceis, naqueles anos 80, onde as descobertas eram quase diárias. Mais tarde, já no inicio dos anos 90 li o romance “Os Nós e os Laços” (1985). Há pouco tempo, uma amiga minha que o conheceu de perto, falou dele… da ternura, dos gestos, do sentir… a estranha forma de sentir que os místicos partilham.

O místico acredita no caminho do coração, do sentir, para alcançar o dourado manto nupcial, que nos fala Max Heindel. O ocultista, segue o mesmo caminho, mas pela via do intelecto, da racionalidade. Sem dúvida que António Alçada Baptista foi um místico, tendo tal concepção e filosofia de vida, marcado a sua obra duma forma ímpar.

Recordarei para sempre esta frase dele: O poder é a capacidade que os homens têm de criar para os outros um destino, essa é a essência da sua perversão”.

Por vezes, o destino que encontramos é um grande Amor, talvez, só nesse caso o destino não seja perverso… ou talvez o seja, até a aceitação, não das duas partes, mas da “una” parte com que se molda o Amor…

Quando há dois meses, “alguém” tentou o que não devería ter tentado, mais uma vez, entendi, aceitei… tentei que a raiva não moldasse aquilo que é desamor. Foi a manifestação de Plutão a 24º de Leão na casa VII, mas também poderá estar na casa VIII… falta o minuto certo do nascimento, pois ter um Plutão na casa VII, ou tê-lo na casa VIII, pode ser a chave-mestra da abertura para a luz dum qualquer drama emocional, da força telúrica da terra, que é Plutão… espero que esteja na casa VII, não na casa VIII, mas poderá ser uma dúvida eterna, que só o minuto, talvez só o segundo certo da primeira respiração poderá determinar com precisão. São poucas as matrizes energéticas que deixam dúvidas, neste limite quase milimétrico, esta matriz é um desses casos. Só conhecendo muito bem o suporte físico e espiritual dessa energia (o ser, talvez humano…), se poderá saber em qual das casas está Plutão. Começo a acreditar que esteja na casa VII…

"Plutão é a recusa obstinada ao melhor que nos espera", como diz Mª Flávia de Monsaraz, que me salvou mais uma vez, naquela noite há dois meses, que poderia ter sido fatídica…
…mas acredito que o Amor reconhece aqueles que ama…

Imagem: Contra-capa de "Recados dum Mestre Interno", de
Maria Flávia de Monsaraz, por António Alçada Baptista [1927-2008]

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Há noites assim




Poderia ser, há dias assim, como cantavam os Rádio Macau, uma estranha forma de recordar o ano de 1984, e a velha canção “Até o Diabo se Ria”, os meus 17 anos, o meu namorado (Beto) Vieira da Silva, que tocava numa banda do Algueirão, as minhas fugas até ao café, pois às 20.00 horas, tinha que estar em casa… Nunca mais o vi, sei que foi trabalhar para a Alemanha… tocava para mim a “Michelle” dos Beatles, duma forma que nunca mais vou esquecer.

Era o tempo da inocência, da adolescência, do acreditar na eternidade do momento, de querer mudar o mundo, das calças de ganga ruças, da voz da minha saudosa mãe: "não tens mais nada para vestir?", dos passeios à tarde para os lados de Sintra… dos velhos cafés da Amadora e de Almada, que nesse tempo frequentava. As festas de Sábado à tarde nos velhos cinemas, que hoje alguns já não existem, as histórias que guardo, dum tempo recortado na margem certa da memória, dum tempo onde reencontrei um Amor, um velho Mestre, que nesse tempo não sabia quem era…

Neste dia chuvoso de Dezembro, enquanto regressava a casa, tentei mais uma vez ouvir rádio, mas a encefalia mental de quem tenta fazer rádio é imensa (com algumas excepções, longe do que é a regra): uns dizem umas coisas sobre futebol, que não entendo e não me interessa, outros falam da vida cor-de-rosa (não será cinzenta?) dumas personagens que desconheço, outros nem falar português sabem, sobretudo nas rádios locais, apesar de se ouvir muito atropelo linguístico, também nas rádios nacionais… Mas pior que isso, é não ter o dom da comunicação, papagueiam por catálogo (talvez, multinacional...), como quem diz bom dia ao vizinho no café.
Contam-se pelos dedos os grandes profissionais de rádio, o resto é paisagem, profundamente deprimente.

A pasmaceira em que este pais tenta sobreviver, sempre a reboque de alguma coisa ou de alguém, é assustadora. Os programas de autor desapareceram, como existiam nesses anos de 1982-84, como a “Cor do Som”, a “24ª Hora”, e um programa que tentava ouvir sempre ao final da tarde, com o Paulo Coelho, penso que se chamava “Círculo em FM”, e outros que já não me recordo. Hoje quando ligo a rádio, a uma qualquer hora, é para ouvir algumas notícias, mas mesmo nessa área a estupidez vagueia. Como o que ouvi hoje: "o rendimento dos portugueses vai aumentar em 2009, pela baixa da taxa de juro, pela queda do preço do petróleo…"; o que sei de economia é pouco, só o que aprendi em duas ou três cadeiras na faculdade, mas qualquer leigo entende o profuso disparate que está a ser noticiado. Confundem o mercado da oferta, com o da procura, baralham os fluxos macro e micro económicos, e lançam ao ar umas supostas notícias, um de fogo de artificio, quanto mais colorido e redopiante, melhor!
Acabei por voltar a colocar no leitor de CD do carro, um velhinho disco do Cat Stevens…”Oh Oh, baby, baby, it's a wild world, it's hard to get by just upon a smile…”

Por vezes, temos que encontrar um refúgio para não perdermos a sanidade mental, pois a sanidade do coração é uma outra história…
… por fim: esta semana foi especial, consegui (talvez, não gosto de certezas...) transmitir a alguém o significado (mais que épico…) do alinhamento da Lua e Vénus… o silêncio é a forma que encontrei de sentir todas as suas frequências, as vibrações de quem encontro pelo sentir… as partituras emocionais começam a dourar um novo tempo de criação, até quando ficará nas galerias do mosteiro que lhe devolvi, até quando ficará no claustro do silêncio com que me penitenciou?

***************************************************


Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.


Pablo Neruda, in "Los Viente Poemas" (1924).[Chile: 1904-1973]

Imagem 1: Conjunção Lua, Vénus e Júpiter (esta semana)
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap081204.html

Imagem 2: Conjunção Lua, Vénus e Júpiter (Los Angels)
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap081203.html

Imagem 3: Pintura da autoria do "Beto" [1984]

domingo, 30 de novembro de 2008

Final de Nove-embro...





O mês de Novembro, para além de ser o mês que nasci (devia ter nascido em Outubro… foram 10 meses…), foi o mês que sobrevivi a um acidente para os lados do Porto Brandão, foi o mês que tomei decisões importantes na minha vida, foi o eterno e quente mês de Novembro… o mês NOVE, não o onze segundo a medição do tempo gregoriano… o eterno retorno à unidade. Tudo tem um sentido, como o mês de Agosto, foi uma homenagem ao imperador César Augusto, sextillis, o sexto mês. O calendário Juliano, foi obra de Júlio César, em 46 a.C. Nem sempre as noções que os homens fizeram do TEMPO, ao longo do desaguar histórico coincidiu, pois o tempo, nosso eterno aliado, é uma mera abstracção, como uma pintura de Dali…

Enquanto este pequeno país deriva entre os doutos banqueiros da bancarrota, da fraude dos falsos juízes, das politiquices mal ensaboadas duns senhores que dizem umas coisas para enganar o pagode, numa espécie de dança sambista, onde o rodar ofegante e acelerado é rei e lei, eu fico refugiada em mim, à procura dele...

A lei adjectiva escrita por falsos profetas, oportunistas euro-convictos, que alastram como amebas, com tentáculos farejantes de metais cada vez mais virtuais, numa simulação bem intrincada no nosso velho código civil de 1966. Aprendi que a simulação (artigo 240º c.c.) é um vício da vontade, hoje acho piada à arquitectura elaborada por homens, sim, em 1966 não existiam mulheres legisladoras, só homens umbilicais no local errado. Ainda estamos a viver no tempo do patriarca, talvez do imperador da margem sul, que convence falsos juízes da delimitação do seu território físico… Mas a matriarca está a chegar, num sopro do vento Sul, aquele que sopra do deserto, do norte de África, aquele que não quer o silêncio da hipocrisia, aquele que procura no falso silêncio, o eco da verdade.

A tónica já corre como a água lavada, dum Amor que renasce das cinzas, em cada momento certo. A água sabe contornar as pedras, sem as magoar...

Amanhã, quem quiser olhar o firmamento, poderá ver ao lado da Lua, Vénus… uma longa história, que terá direito a honras, não militares, mas celestes. Quando a Lua está perto de Vénus, como estará amanhã a 22º de Capricórnio, em conjugação com Júpiter também a 22º, faz sentido, o que “ele” está a sentir. Como dizia, Lao Tze: “o homem verdadeiramente forte é aquele que sabe fragilizar-se”, acrescento: - é aquele que aprende o que é o Amor na inversão do tempo certo. É a aprendizagem, de Vénus a 23º de Virgem, da Lua a 26º de Virgem, na casa VIII, a casa de Escorpião. Três graus de distância, é nesse micro espaço que se descobre onde está a paixão e o Amor. A paixão é fruto duma só encarnação, o Amor é a expressão de todas as vidas já vividas… não é fácil distinguir a diferença entre a Lua e Vénus, numa casa kármica, como é a casa VIII. A dependência e a ligação são formas diferentes de sentir. Só se volta à unidade pela ligação (Vénus), não pela dependência, quase vampirística (Lua).

Nasci com a Lua a 29º de Capricórnio, quase a entrar em Aquário, na casa IX de Sagitário
… e Vénus a 27º de Escorpião, na casa VI, a casa de Virgem.

Essa distância dá-me o entendimento, que quem tem a Lua conjunta a Vénus, com três graus de diferença, na casa VIII... dificilmente, consegue ter. É uma energia a trabalhar, e sei que “ele” vai chegar a esse entendimento. A matriz de cada um revela, os aspectos que temos de trabalhar… as progressões são o termómetro do sentir. A lua progredida começa a revelar-lhe essa diferença, neste momento certo, que o céu programou para este Amor.


FERNÃO DE MAGALHÃES

No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto -
Cingi-lo, dos homens, o primeiro -
Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.

Fernando Pessoa, [Lisboa, 13 Junho 1888- 30 Novembro 1935], in a “Mensagem” – 1934


Imagem 1: Pintura de Paulo Cardoso, ilustrando o poema VIII (casa VIII) da segunda parte da “Mensagem” – Mar Português - Fernão de Magalhães [1988]

Imagem 2: Nebulosa da Cabeça do Cavalo de Orion, “The Horsehead Nebula in Orion” - http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/ap081126.html

Imagem 3: Matriz energética… Vénus conjunta à Lua na casa VIII

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Há cinco anos...




Torpedos foram lançados como uma tempestade de pedras sem fim, tentando apagar este sentir, a mais estranha história de amor que alguém já escreveu. Quando lhe pedi a paz, a brandura, tive a resposta recortada em lâminas ardilosas e farpas cortantes, um olhar gélido, onde tinha existido o entendimento dum olhar morno, repleto de voos possíveis, entre o encanto e o encantamento. Talvez, tivesse deixado de ouvir, de ver, de sentir a verdade, ficando ancorado numa conspiração mundial contra si próprio, na qual eu era a face visível, de vários rostos ocultos. Um cristal de tempo embutido no muro armadilhado com nove estandartes, na cercadura esverdeada onde se esconde de mim, idealizando as Musas, as que para o poderem ser, têm que continuar o seu caminho errante, conhecedoras do velho sonho premonitório rasgado, como um sopro do vento Norte.

A sua inocência desnudada, foi adquirida por um anjo proditório, tornando a mais bela profecia, na mais perversa história de amor… mas o AMOR não condena, sente-se como um perfume prometido, um tempo secreto que se revela no momento certo.

Há cinco anos... numa terça-feira, como hoje, vagueei pela estrada marginal, até ao local destinado, como um destino que ainda não entendo, onde ele estava repleto de cadeiras vazias… mesmo assim, sentei-me o mais distante que era possível, talvez não me reconhecesse, vinte e um anos era muito tempo, um tempo que nunca existiu... Abandonei o recinto, e voltei pelo mesmo caminho, olhando o outro lado do oceano, sempre com o telefone desligado, pois o meu casamento estava por um fio… na manhã seguinte, como um cheiro primaveril em pleno Outono, quando liguei o telefone tive uma surpresa… ele tinha-me ligado… bruma ou musa, ainda hoje não sei o que me disse.

Resistindo-lhe ele persistiu, entranhando-se na distância do tempo… Hoje perdura na ausência dum voo flutuante, onde as asas indolentes retomam suavemente um voo renovado, a remição que o AMOR conhece e sempre aceita, no momento certo da nossa eternidade.



A CHAMADA

Sempre soube que as pedras
rolam pelas encostas dos montes
se não tiverem nada que as segure
como os teus olhos contrariando
a chamada
do outro lado da casa.


Há uma cadeia de sons
apelando para os odores das águas límpidas,
desses cheiros sem cheiro
oculto na terra viçosa e aberta às chuvas.
Por ela - sem que me perguntem - respondo
mesmo à distância
como se estivesse prisioneiro do seu chamado
no ruído do eco longínquo
que só se escuta no interior dos búzios.

E lá vou
evitando afogar-me nas agudezas das ondas
com a transparência do papel branco
onde decidi deixar para sempre escrito
o amor
com que te imagino no centro do mar
apesar
de no teu dorso de ilha
alguém ter pintando a paisagem absorvente
do apego eterno
e nele respirar um inconfessável medo.

Sucumbo aos chamados surdos
como se nos teus trinados uma canção
se repetisse
nas promessas celestiais.

Sabes porém que não precisas
de artifícios.
Se me dessem o céu recusaria.
Prefiro o teu destino de pecado,
cedo a todos os vícios
e neles ergo os alicerces
de todos os meus princípios.
Na tua boca escondem-se as razões
finais.
Mas não digas a ninguém.
É segredo.


(04-09-2004)

José António Gonçalves [1954-2005], in “Ausência”,
colectânea de inéditos [2008]


Imagem 1: Capa do livro que acabei de ler esta noite...
25 Nov.2008
Imagem 2: “Onda 1” [2000]: Tela a óleo de Mitó Carreiro
(S.Miguel, 1963)
Imagem 3: Eu… entre o sexto e sétimo tempo saturnino...

sábado, 22 de novembro de 2008

Três Linhas.




Três linhas, um triângulo em ascensão, nesta colheita outonal, de formas densas entre o azul celeste, o turquesa, o índigo, o violeta, a cor púrpura… passagem do quinto para o sexto chakra, o caminho secreto de Vishuddha para Ajna… a eterna ponte para o sétimo chakra, dum Amor Eterno...
… fruto do que não posso escrever aqui…
… escrever três linhas, foi o “Seu” pedido, que aceitei…


Harvest Moon

Come a little bit closer
Hear what I have to say
Just like children sleepin'
We could dream this night away

But there's a full moon risin'
Let's go dancing in the light
We know where the music's playin'
Let's go out and feel the night

Because I'm still in love with you
I want to see you dance again
Because I'm still in love with you
On this harvest moon

When we were strangers
I watched you from afar
When we were lovers
I loved you with all my heart

But now it's gettin' late
And the moon is climbin' high
I want to celebrate
See it shinin' in your eye

Because I'm still in love with you
I want to see you dance again
Because I'm still in love with you
On this harvest moon


Neil Young, in "Harvest Moon" [1992]

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Regressei...




Foram quase três semanas onde me reescrevi por dentro, numa viagem interna e externa, repleta de invasões e revelações. Fechei a porta ao sexto ciclo saturnino e abri a porta ao sétimo ciclo… o primeiro onde entrei com a consciência do que isto quer dizer. O mundo do sentir (aquele em que acredito) já não me chega, comecei em busca duma explicação mais racional para algo que me aconteceu há quase três semanas. Uma estrada repleta de hortenses e acácias, num caminhar quase heurístico, sem qualquer regra pré-definida.

Por mero acaso (será?) ao desfolhar um livro, encontrei o quadro que não sabia existir, a imagem que me surgia por vezes, em sonhos desde a infância. Foi como uma fonte de fogo que aconteceu por um momento, fagulhas de água resvalaram na memória…
O autor do quadro foi um pintor alemão Anton Raphael Mengs, do século XVIII, neoclássico, tendo-se dedicado muito à pintura de retratos, não tendo eu particular interesse pela pintura retratista. Procurei outros quadros do referido pintor, até aquele momento desconhecido, como se uma revelação quase mística me tivesse acontecido. Mas, provavelmente terá outra explicação para além da mística, pois começo a acreditar que estas questões estão alicerçadas em modelos matemáticos de explicação do Universo. O simples sentir e "pré-sentir"... talvez tenha profundos e simples cálculos elaborados na sua base, indecifráveis, talvez ainda por falta de conhecimento dos ditos humanos.

Nessa mesma semana, foi-me revelada mais uma peça do puzzle desta pedra angular-triangular: a vivência da casa VII é para ser vivida na casa IX. Estou a referir-me a uma matriz energética em particular, não em termos gerais. Este facto já o sabia, mas nunca tive a consciência da blindagem total dessa mesma casa IX. Foi circuitado numa outra vida, talvez essa cisão tenha sido realizada por um velho mestre espiritual, talvez ele próprio... Nesta encarnação alguém deve ter a chave para abrir a porta dessa casa IX… quem será?

O trabalho intuitivo foi uma conquista do passado, a fronteira só alcançada quando “ele” encontrar quem tem a chave para abrir essa porta. Escreveu há muito tempo, numa fase inicial mas não iniciática, um texto que mais tarde revelou como épico... o homem estava só, e nessa consciência permaneceu, pois hoje já tem consciência que é a porta da casa IX, permanecendo ela fechada, pois não é "ele" que tem a chave para a abrir... Mas ainda não chegou o momento certo, ainda está a viver o oitavo ciclo saturnino, e a casa IX pede uma oitava acima de Vénus... Neputuno.

O Sol procura um espelho, não lunar, mas venusiano… tendo como objectivo final Neptuno. Tal facto só acontecerá quando abrir o nono ciclo saturnino, ou seja depois dos 56 anos. Até lá, vai continuar a pensar que é o senhor do ego calcetado, andarilhando nas festarolas com os pândegos, numa pandilha rolante, incapaz de engendrar o seu verdadeiro caminho, que está guardado não a sete, mas a nove chaves... alguém as guardou vidas e vidas. Tudo isto é reconfirmado matricialmente duma forma quase implacável, pois Saturno (tempo) está na casa IX, quase no Meio-do-Céu... o Universo não se engana, e esta é uma prova palpável, física, duma evidêndia quase atroz. Também a crueldade tem um sentido, talvez kármico, como forma de identificação de quem guarda a chave da casa IX.

Esta história real, é como uma lavagem no rio Jordão - “noites à luz mortiça na sombra do eu” - a verdade começa a ser revelada, Jesus Cristo nunca ressuscitou, a Ressurreição diz-nos que foi ao terceiro dia…



Trajectória

Rostos de pedra.
Prescutando a névoa da esperança.
E mesmo os sorrisos mais subtis.
São um convite anuindo sujeição.
Quem irá modificar os rostos de pedra?

Humano coração.
Emergindo da estrutura
Mecânica, incondicional
Caminhando imberbe
Ao encontro da alegria.
Crónica prévia.
Controlando inédita.
A possibilidade irrevogável
Da novidade.
Desferindo
Coincidências de rotina.

Três dias divididos.

À medida que a noite se adensa.
Transparecem todos os dilemas explanados.
E caem sobre mim.
Todos os humores que enchem a noite.
Mordendo um sereno segredante azul.


Ao longe,
Depois de um dia nascer.
Flutuam gráceis cintilações
E aquelas papoilas
De um claro vermelho granada
Deram um gesto de alegria
Na estrada.

António Manuel dos Santos Fernandes, in "Pedra Angular" [2006]



Imagem 1: "Madonna and Child with two Angels", de Anton Raphael Mengs [1728-1779]

Imagem 2: Regressei...

Imagem 3: Casa IX duma matriz em particular

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Da Água para Terra...




Vulnerabilidade da água, talvez seja a capacidade de aceitar sem nada pedir, como a noite velada, numa estrada entre a demência e a premência dum momento certo por reencontrar.

Não sei qual a razão, mesmo que irracional de tanta devastação mental, em que se precipitou um ser. Arreigado entre a sua descendência e ascendência, entre a primeira água canceriana do sentir da infância, da doce mãe, e a última terra capricorniana da responsabilidade social, desse sentir projectado num ideal colectivo, num gregarismo superficial e electrizante, quando deveria incidir essa água distinta de grandes memórias de outras vidas, num colectivo umas oitavas acima, com outra abrangência intelectual.

Câncer escondido na sua carapaça de sentir, Capricórnio obstinado na sua concretização social... será esta separação mental ou emocional? Integrar as polaridades não é tarefa fácil, como não é linear resolver oposições e quadraturas kármicas. O Universo é sistémico, entender o Amor duma forma analítica, é um desmembramento de seres alterados, num laboratório onde a prova reina como coadjuvante no inferno da sua arte.

Por vezes, sinto-me como uma artesã do Amor, daquele que é bordado no mais puro linho, como quem pinta uma tela daquilo que não vem nos jornais. O Amor é um clandestino predador, no livro que está a ser escrito… mas a verdade do que aconteceu, só nós a sabemos. O Amor, esse vulgar homicida reencontrado, esse silêncio desnudado eivado nas linhas das mãos, em forma dum templo cruel, esse jardim incendiado, na janela que recorta o Mar em quadratura, a Sul e a Oeste... O lado masculino irradia na varanda mental virada a Sul, fechando-se ao horizonte feminino a Oeste...

Desenhei o nome desse ser emparedado, no vidro embaciado do carro, no centro duma qualquer cidade perdida de si… Tanta gente e ninguém, pois quem ama vive, quem não ama sobrevive…
O Amor declarativo será sempre uma denúncia atormentada, mas o Amor narrativo, exaure-se na evasão entre os tormentos da adjectivação do narrador, quiçá, personagem principal num qualquer palco secundário.

Estranho eixo de evolução de Câncer para Capricórnio, a 13 graus… a caminhar dum mundo de memórias subjectivas e de imaturidade, tentando definir o dharma, a missão que se materializa na última terra que é Capricórnio. Essa materialização do social deverá incorporar as águas do câncer, não abrigando a alma na armadura do medo do sentir, pois esse sentir reconduz ao passado, a memórias dolorosas e kármicas. Trilhar esse sentir, é saber aceitar, sem medos, sem vazios lunares, sem equívocos cósmicos… aprender que quem ama, não se defende, não acusa, pois quem o faz é o ego, e só a Alma reconhece isso a que chamamos Amor.

Esse é o processo de individuação, que Jung refere… saber atravessar o grande deserto ou as grandes águas, a porta oculta de escorpião, é saber identificar o eixo de evolução, que nos leva da cauda à cabeça do dragão.

A Lua é o regente exotérico de Câncer, sendo Neptuno o seu regente esotérico.
Saturno rege exotericamente e esotericamente Capricórnio…
o Tempo de Saturno Capricorniano.

Faz sentido esse medo de Amar…

Devemos ter compaixão por esse ser que teme o Amor, que se refugia numa gruta fina, com medo da água que continua a correr em cascata sem parar, que se perde em fendas lunares de corpos densos, onde as passageiras sem título de transporte não passam de massagistas ao domicílio cheias de avareza, ou meras damas de companhia da solidão onde mergulhou, das miseráveis mentiras confessadas aos quatro ventos, na sombra dum ego que nunca amou nada, nem ninguém...

A primeira vez que Marte reconheceu Vénus, teve medo e fugiu, como um guerreiro duma guerrilha que Vénus nunca desejou. Mas Vénus é Una, numa tripartição criativa…

Vénus devolve a fragilidade, reconduz-nos à luz, que “alguém” ainda tem medo de aceitar, mas Vénus é o último sopro pacificado da arte criativa, esse reencontro do momento certo, onde reina a inspiração dos Deuses e a sabedoria dos grandes Mestres…

***************************************************

Amávamos ambos as falésias, o recorte das escarpas,
o desenho irregular dos promontórios; todos os lugares
que, como as ilhas, são agastados pelo mar e pelos ventos.

Não havia neblina nessa noite. Apenas a luz opaca
de um farol atormentando as estrelas. Disseste
quase nada para não ferires um atordoado silêncio
interior. E tocaste-me pela primeira vez os seios
como se disso, para sempre, fosses ter medo.

Abandonaste a praia logo que chegou o primeiro pescador:
a primeira lanterna,
a primeira rede.


Maria do Rosário Pedreira, in "A Casa e o Cheiro dos Livros" [1996]

Imagem 1: Câncer
Imagem 2: Capricórnio
Imagem 3: Eixo evolutivo de Câncer para Capricórnio...

sábado, 25 de outubro de 2008

Granada




Quando há três anos me convidaram para participar num estudo relativo às correntes migratórias, não hesitei e aceitei… era uma oportunidade de sair daqui, fugir do que estava a sentir, do medo de explosão do meu Plutão conjunto a Marte na casa V (leão) a qualquer momento.
Agora, sei (não acho), pois o sentir está na alma, o achar no ego, que fugir do medo é implodir, é enganar a natureza de Deus.

Em Outubro parti para Granada, cidade que não conhecia, que me apaixonou pela cor, pela luz, pelos tons fortes dos cheiros e dos sabores, o mercado onde se encontram chás e temperos intensos, e claro… o que senti quando entrei pela primeira vez em Alhambra (séc.XIII), com os seus arabestos recortados até à exaustão da perfeição. Percebi naquele momento parte das minhas raízes andaluzes.

Redescobri García Lorca, na casa onde passou férias nos últimos dez anos da sua breve vida, de 38 anos. Do jardim com milhares de rosas que integram a Huerta de San Vicente…

Guardo de Granada o tempo breve… as cartas que lhe escrevi, estão depositadas depravadamente, não no jardim dum Amor eterno, mas entrelaçadas com papelada cúmplice da cobardia, numa descida abissal às fundições efémeras do ego…
… só na Alma, vive este Amor desancorado.


SONETO DA CARTA

Amor do peito que em morte se converte,
em vão espero tua palavra escrita
e, com a flor que o tempo debilita,
sei que, se estou sem ti, quero perder-te.

O ar é imortal, a pedra inerte
a sombra não conhece nem evita.
Coração interior não necessita
do mel gelado que esta lua verte.

Por ti sofri, rasguei as veias plenas,
tigre e pomba, sobre a tua cintura
em duelo de dentadas e açucenas.

Dá, pois, palavras à minha loucura
ou deixa-me viver nesta serena
noite da alma para sempre escura.


Frederico García Lorca, in "Sonetos do Amor Obscuro" [1936]

Foto 1: García Lorca (Granada: 1898-1936)
Foto 2: Rosa da Huerta de San Vicente (Chris, 2005)
Foto 3: Patti Smith na sala do piano na Huerta de San Viente (1998)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Momento Certo ... Saturnino




Um amigo perguntou-me o porquê do nome deste blogue: “O Momento Certo”. Não sei se consegui responder, provavelmente não, pois o momento certo, é o momento que não preparamos, mas que acontece… como a vida. Acontece quando o Universo o prepara na sua ordem inteligente, numa confluência perfeita de energias. Pode parecer confuso, mas as palavras são sempre imperfeitas face à dimensão da Alma, pois só ela, conhece (pelo sentir) esse momento.

O momento certo é a sabedoria do tempo, a intuição do tempo, na conceptualização da mais pura abstracção: o próprio tempo. O tempo não existe, no sentido existencialista, o tempo é a essência da nossa própria evolução.

Por vezes, falamos das coisas pela rama, não procuramos as raízes mergulhadas na memória. De sete em sete anos fazemos uma revisão das nossas vidas, esquecemo-nos, por vezes, da ancestralidade que está na base destas passagens cíclicas.

Um ciclo de Saturno dura aproximadamente sete anos… não é por acaso que é Saturno. De sete em sete anos Saturno faz uma quadratura a si próprio, pondo muitas questões, reestruturando a energia e o pensamento, pois ela (energia) segue-o (pensamento). Seguir não é perseguir duma forma quase mortífera, sem essa noção saturniana, que Saturno nos pede. A presença de seres poucos evoluídos, e talvez alguma ebriedade, condicionaram o ser que nunca foi híbrido, felismente!

Como estou a fechar um ciclo de Saturno na minha vida, tenho pensado muito nestas questões do tempo, como ele tudo resolve, como o Amor é transversal à passagem do tempo, a noção de eternidade, de perenidade...

Quando Saturno entrou em Leão, em Julho de 2005, alguém andava muito preocupado com estas questões, telefonava-me a altas horas da madrugada, a perguntar-me o que eu ainda não sabia responder. Mas, como a vida para essa pessoa é uma permanente festa palaciana repleta de saias, passou o resto do ano na rambóia, numas corridas entre a casa que deveria ser um mosteiro sagrado, e o aeroporto, para transportar uma coisa disforme, que mais parecia uma personagem dos “Marretas”, talvez a Miss Piggy… Tentei alertar para o que lhe poderia acontecer com aquele ser destrambelhado, mas não me ouviu. Espero que tenha aprendido com Saturno, que por acaso (será?) tinha entrado em Leão nesse ano, hoje está em Virgem.

Saturno é o Deus romano, Cronos o Deus grego, filho de Gaia (Terra) e Urano. Pode parecer inversão aparente da mitologia, mas Saturno representa o passado, o senhor do karma, das memórias, o que nos retrai, enquanto Urano é o apelo do futuro, a consciência do momento presente (será o momento certo???), num futuro onde já existe essa integração dessa consciência em progressão.

Saturno é o olho frio do tempo, pois ele tem memória do nosso karma, daquilo que não resolvemos no passado. É a área onde podemos entender qual a proposta desta vida, qual a matriz e as tensões energéticas que temos que resolver. Mas, ele pode ser uma lâmina fina e subtil, pois uns aprendem com os erros, outros permanecem encerrados neles, atafulhados de “caderninhos”, que entregam a desconhecidos, com aquele ar plácido, onde se encobre a herege traição, de outras vidas, e desta, pois Saturno ainda não está integrado. Quando "alguém" entender esta experiência limite, a mulher que dizia ser a sua sombra que lhe devastava a vida... perceberá e saberá reconhecer o "Senhor do Karma" - Saturno.

Segundo Jung, nos seus estudos referentes ao inconsciente colectivo, a sombra representa um peso saturnino, as massas não assimilam de imediato um novo pensamento criativo, podem demorar três ciclos de Saturno.
Saturno é a responsabilidade em aceitar quem somos, com o entendimento dos erros que devemos tornar transparentes, pois assim, ampliamos a consciência, como uma espiral evolutiva saturniana. Onde está Saturno no nosso tema natal, é onde está a energia de aprendizagem, relacionada com o karma, com as energias que temos que desbloquear, pois Saturno é a responsabilidade que temos no tempo… talvez, certo.

Saturno no meio do céu (MC) a 3º de escorpião, na casa IX, faz sentido em toda esta estranha história, tem uma lógica embutida numa pedra ainda não encontrada. Talvez… já encontrada, não sei. Saturno, na matriz energética que não revelo na totalidade neste espaço, faz quadratura ao Sol, a 9º de leão. O Sol representa a consciência, o fogo, o ego, a expansão… Uma quadratura de Saturno ao Sol, com um Marte na casa XII, fazendo este Marte uma outra quadratura a Vénus na casa VIII, estando Vénus a 23º em conjunção à Lua a 25º...
… fica para um próximo texto, pois não quero ser hermética, intricada nas palavras, como já me "acusaram" algumas vezes.

A matriz de encarnação é implacável, certeira, não a podemos mudar, não no sentido trágico, de destino, de fado, mas no sentido que os aspectos menos positivos, para não dizer negativos, são a grande oportunidade de evolução. Quem nasce só com bons aspectos, não tem grandes questões para resolver nesta vida, quem nasce com maus aspectos, tem uma oportunidade dada pelo Universo para evoluir, para ascender, na compreensão da proposta que “ELE” nos colocou nesta encarnação. Devemos ser fiéis à nossa evolução universal.

Percebi que não tenho que me defender de nada, pois a culpa, o julgamento e o medo, são crivos saturninos. Quem ama perde o medo, perde todas as aberrações e perversões mentais, todos os jogos falsos de conquista plutónicos.
A vida é a grande oportunidade de libertação... saturniana.

IDADE MADURA

As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras, nem delas careço.
Tenho todos os elementos
Ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
Nem mesmo sinto falta
do que me completa e é quase sempre melancólico.
Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
Absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
Durmo agora, recomeço ontem.

De longe, vieram chamar-me.
Havia fogo na mata.
Nada pude fazer,
nem tinha vontade.
Toda a água que possuía
irrigava jardins particulares
De atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.

Nisso, vieram os pássaros,
rubros sufocados, sem canto,
e pousaram a esmo.
Todos se transformaram em pedra.
Já não sinto piedade.

Antes de mim outros poetas,
depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.
Moças fatigadas se entregam, soldados se matam
No centro da cidade vencida.
Resisto e penso
numa terra enfim despojada de plantas inúteis,
num país extraordinariamente, nu e terno,
qualquer coisa de melodioso,
não obstante mudo,
além dos desertos onde passam tropas, dos morros
onde alguém colocou bandeiras com enigmas,
e resolvo embriagar-me.

Já não dirão que estou resignado
e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo,
Há reservas colossais de tempo,
Futuro, pós-futuro, pretérito,
Há domingos, regatas, procissões,
Há mitos proletários, condutos subterrâneos,
Janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei, médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:
tudo depende da hora
e de certa inclinação feérica,
viva em mim qual um insecto.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.

Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa,
e ganho.

Carlos Drummond de Andrade
[1902-1987, in "A Rosa do Povo - 1945]


Imagem 1: Dalí: A Persistência da Memória [1931]
Imagem 2: Dalí: A Desintegração da Persistência da Memória [1954]
Imagem 3: Matriz energética: Saturno no Meio do Céu (MC)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

MARTE... A-mar-te.




Neste espaço as palavras são livres, dançam ao sabor das vagas assombradas e ensombradas pelo temporal das pedras de Marte, ou deambulam dançantes e descalças como Isadora, na sua eloquência de quem perdeu o medo de assumir a sua loucura.
Sentir a energia da terra, da água, do fogo, do ar, do éter... da flor que guarda o diamante como um segredo eterno.

Tudo é energia, tudo o que projectamos, recebemos o seu retorno, pela lei da correspondência cósmica.
Não é uma retribuição judaico-cristã, mas uma resposta do Universo inteligente.

A cada ser cabe um projecto divino de ascensão, passando da dimensão obscura (inconsciência) à claridade (consciência).

Existem seres que andam por aí, que ainda vivem com a noção de territorialidade, da falsa noção de império, que baralham conceitos de posse e propriedade e ficam avassalados quando se perdem no devaneio do território.
A revelação da ordem suportada não está embutida nesse território, onde ainda tenta eleger um feudo, como se aquela terra fosse sua propriedade.
Depois, revela-se o delírio imperial, como um velho cavaleiro templário que ainda guarda nos genes desta encarnação, a noção de império, de território, de outras guerras travadas, talvez, na Idade Média.
Quando se tem Marte a 25º de Sagitário, na XII casa, deve-se ter algum cuidado com atitudes violentas. Temos logo o retorno, pois sendo a casa XII uma casa kármica… a luz da consciência ainda não tocou essa área de vida, mas as experiências acontecem como oportunidades de consciência. Existe uma desordem interna, espelho dum “buraco negro” da memória. Como nada acontece por acaso, espero que tenha entendido a experiência, não com esses “seres insignificantes” que o acompanham, seres que vivem primeiras encarnações, mas com a capacidade que tem, quando uma noite me disse que provavelmente esta é uma das suas últimas encarnações. Será? Como Helena Blavatsky, Alice Bailey, Max Heindel… talvez, Hirão Abif…

… talvez, mas se assim é, terá que aprender que a crueldade foi uma defesa para um medo inconsciente. Talvez, seja parte da revelação exposta, quase confissão imposta, para o que está para além da crueldade, algo que não encontro designação de substanciação, nem de adjectivação. Provavelmente, essa palavra ainda não foi inventada pela humanidade.

Primeiro experiencia-se, depois teoriza-se… só assim faz sentido, pois os sentidos como percepção do sentir, revelam-nos os caminhos para uma nova racionalidade.

Foi numa sexta-feira, 13 de Outubro de 1307, em La Rochelle.

Cavaleiro da Ordem do Templo, de espada erguida, como a Espada de Tyler, os dois lados da lâmina, o amor imemorial e a recusa dele. A espada erecta na sala, as mãos dadas como um templo sagrado, a cumplicidade de muitas vidas ficou ancorada, à espera do momento certo...

Na única regressão com progressão que fiz, reencontrei um cavaleiro de espada apontada, um cavalo branco sem rédeas, um agente transmissor de luz, uma pedra triangular, uma serra nebulosa, brumas esquivas ondulavam entre o azul e a cor púrpura do 7º raio de evolução... capelas, igrejas, mosteiros… monges caminhavam para um outro tempo, talvez reencontrado nesta vida.

Parece uma tela surrealista, como os quadros de Dali...
Não será o realismo a forma menos criativa de expressão artística?
Seguindo a intuição, começo a juntar as pedras...
do Templo, do Tempo.

Os Velhos Mestres conhecem velhas formas de invocação.

A Santa Trindade, a triangulação angular, começa a fazer sentido…

“A raiva é um apêndice do amor”… vale sempre a pena da pena abandonar a viela do apêndice, fugaz e transitório, como mero anexo palpitante, e caminhar pela estrada onde só o amor impera, longe dos imperialismos condicionantes do território.
A “era de aquário” está à nossa espera, como uma infiel amante, como uma fiel amiga.


No Lado Certo de Cada Rua

existe no lado certo de cada rua uma porta
um sinal indicando o rumo do paraíso
esse lugar onde as pessoas se amam
riem ou choram
apenas quando é necessariamente
preciso

uma porta, uma janela ou um sinal
qualquer, um caminho, os poros duma vida
indicam sempre a distância onde se mora
e sobrevive, acredita e ora
no exacto momento do apagar da luz
à saída

uns partem para sempre na penumbra
e outros resplandecem como a lua iluminada
e tornam palpável a miragem de qualquer norma
onde se obriga a que tudo se altere e transforme
fazendo crescer a semente da sabedoria
onde antes somente havia breu
e o nada
ambicionando ser dia.


José António Gonçalves, in “Noites de Insónia” [1998]


Imagem 1: Foto da Nasa do planeta Marte, retirada de:
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/archivepix.html

Imagem 2: Foto da Nasa do planete Marte, retirada de:
http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/archivepix.html

Imagem 3: Matriz energética Marte na XII casa.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

As flores do bem, que ainda acredito.






Quase a um mês das eleições presidenciais nos E.U.A., mais um debate entre os dois candidatos passa em directo nas televisões de todo o mundo, vou fazendo “zaping” entre a Sic-N e a TV5, enquanto acabo um trabalho que tenho que entregar até ao final desta semana.

Nenhum dos candidatos ainda falou da nova ordem mundial que está a nascer, da era de Aquário que começa a deitar por terra rasante todas as estruturas vincadas pela era de Peixes, que já acabou, mas que teimosamente teimam em continuar, o que o céu já não quer.

Começamos a assistir, (deveríamos ser intervenientes activos, mas poucos o são...) à preparação das consciências, para um novo tempo, que só começará a consolidar-se depois de 2012. Esta transição planetária, está inscrita no céu desde sempre… mas o momento certo chega sempre, é implacável…

Podemos viajar até às pirâmides de Gizé, aos calendários inscritos na pedra, passando pela antroposofia e algumas noções do pensamento cabalístico e budista, para entender a evidência da simplicidade das grandes questões que sempre se colocaram à humanidade... foram sempre as mesmas, assumindo diversas formas e contornos, diversos lastros temporais, nas mais diversas épocas históricas.

Numa das estantes do meu escritório continua a “bíblia” económica de Samuelson por onde estudei economia política, tendo sido deslindada duma forma brilhante pelo Dr. Arlindo Donário. As questões académicas são hipóteses “ceteris paribus”, como se a economia estivesse encerrada num aquário doméstico, mas a realidade é um oceano imenso.

Nada tenho contra os jovens de 20, 30 anos, mas não têm o mesmo nível de responsabilidade que a minha geração teve. Quando comprei o meu primeiro carro, há quase 20 anos, comprei-o com três cheques pré-datados, não passei 50 meses a pagá-lo! Hoje para além dos carros, são os electrodomésticos, os computadores, os telemóveis, as viagens… Não entendo como se vai de férias com prestações de tudo e mais alguma coisa para pagar.

A paz vem de dentro, nunca de fora… a nova era já bateu à porta há algum tempo, mas os homens continuam a bater na mesma tecla já gasta… mas temos muito tempo, esta nova era de Aquário vai até 4.000 d.C., ninguém sabe o que vai acontecer nos próximos 2.000 anos. E ainda bem que não sabemos...

Como já aqui escrevi a humanidade está na pré-história, poucos são os verdadeiros Mestres, muito menos os que andam por aí, a atirar pedras, e têm espadas verticais simbolizando o que não praticam… Talvez essas pedras tivéssem um sentido: expandir a consciência de "alguém"...

… continua o debate Obama e McCain, os dois não são assim tão diferentes, mas do mal ao menos, talvez Obama minimize o erro vertiginoso em que a humanidade está embutida, como lapas cortantes na pedra.

Do outro lado, na sala, toca baixinho “Brumes et Pluies”, na voz de Ferré (o trabalho tem sido duro…) e escrito por Baudelaire. A análise comparativa entre os dois mapas astrais destes senhores que já não estão entre nós (será?) é curiosa, pois têm muitas semelhanças as suas matrizes energéticas.

Uma outra análise que realizei, foi entre o mapa astral de Léo Ferré e de “alguém”, é quase um decalque perfeito dessa outra matriz energética. Marte não está na casa XII, mas na IX. Mas o mais impressionante é a linha do horizonte, ou seja, a linha que vai do descendente (oeste – ocidente), para o ascendente (este – oriente)… é grande a semelhança energética, varia alguns graus...
Sei que me engano algumas vezes, tento enganar-me cada vez menos, mas o céu nunca se engana, e se eu estou equivocada, “ele” (o céu, entenda-se!) não está.

O debate continua, no papaguear das dualidades do mundo, e do “sonho americano”, que passou a pesadelo... santa paciência nesta encefalia ideológica.

Brumes et Pluis

Ô fins d'automne, hivers, printemps trempés de boue,
Endormeuses saisons! je vous aime et vous loue
D'envelopper ainsi mon coeur et mon cerveau
D'un linceul vaporeux et d'un vague tombeau.

Dans cette grande plaine où l'autan froid se joue,
Où par les longues nuits la girouette s'enroue,
Mon âme mieux qu'au temps du tiède renouveau
Ouvrira largement ses ailes de corbeau.

Rien n'est plus doux au coeur plein de choses funèbres,
Et sur qui dès longtemps descendent les frimas,
Ô blafardes saisons, reines de nos climats,

Que l'aspect permanent de vos pâles ténèbres,
— Si ce n'est, par un soir sans lune, deux à deux,
D'endormir la douleur sur un lit hasardeux.


Charles-Pierre BAUDELAIRE, in "Les Fleurs du Mal" [1857]


Imagem 1: Mapa astral de Léo Ferré, realizado por Jean Aidane
Imagem 2: Matriz energética de Léo Férré
Imagem 3: Mapa astral de Baudelaire, realizado por Jean Aidane
Imagem 4: Matriz energética de Baudelaire

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Entre os 20 e os 40...




Entre os 20 com maquilhagem e os 40 sem maquilhagem… deveria ser ao contrário, mas não é. Aos 20 estava presa na imagem fugaz da inexperiência palpitante de quase tudo, a dor que já me tinha tocado pela primeira vez da forma mais cruel, mas que ainda não queria sentir… por isso não fiquei mergulhada nessa mesma dor, que reencontrei 20 anos depois…

… do mundo que queria mudar à minha imagem, talvez semelhança… ficou guardado na gaveta secreta dos tempos… hoje, pouco quero da vida, só a paz de entender o porquê de tanta crueldade que inunda a humanidade na generalidade, na especialidade de um ser devassado na sua cobardia, encerrado na sua hipocrisia, prisioneiro desse medo de amar...

…juro que não entendo…
mas tento entender, a cada momento do resto da minha vida, a impossibilidade dum amor imenso, que nunca mais me abandonará...

Onde acaba a negligência e começa o dolo, qual a linha de define os juízos de probabilidade e os de previsibilidade, será que falta tipificar alguma conduta que seja dolosa, ilicita e culposa? Será que estão contempladas, na nossa lei criminal todas as causas de exclusão de ilicitude?
Teorias criminalistas do comportamento humano da acção e omissão, como comissão (art. 10º C.P.), será o silêncio potestativo uma omissão do comportamento humano doloso?

Não sendo os actos preparatórios desse Amor puníveis, será a continuidade uma agravante desse estado patológico? Será a omissão de auxílio, considerado crime nesses casos?
Será? Será? Será?
Não sei, o que sei é pouco, o que sinto é demais…

Fugi deste Amor durante tanto tempo, tempo que "ele" não reconhece, por medo desta doença que é amar, do medo de dizer: “Amo-te!”. Disse-o, talvez uma única vez, talvez de joelhos, numa cama igual a tantas outras… fugiu de mim da forma mais cruel, tendo “depositado” nessa mesma cama uma outra mulher, sete dias e sete noites depois, que diz ser eu…
juro que não entendo…

Será o Amor um mero homicida negligente ou doloso? Se for doloso será ele directo, necessário ou eventual? O AMOR é um estranho, talvez vulgar homicida…
A verdade é aquilo queremos que seja…

Escrever mais, será sem dúvida, escrever demais...

Maria do Rosário Pedreira, escreve os poemas que eu gostava de ter escrito para “ele”, os que escrevo, estão guardados numa gaveta secreta, pois o primeiro que lhe revelei, escrito em Granada, há quase 3 anos, está enclausurado num “apinhamento”, talvez “enogueiramento” duns papéis bafiosos, para análise do desconhecimento emparedado, duns funcionários administrativos dum qualquer estado social e socialista que há muito deixou de existir…

A pinha que lhe atirei, foi o presságio da mansidão duma nova dimensão deste Amor… as pedras que “ele” me atirou, foram para matar este Amor, foram para me matar...
…será que conseguiu? O fim já não me interessa, mas o caminho que todos os dias percorro no reencontro desse mesmo Amor.

Aos vinte…

De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Maria do Rosário Pedreira, in “Nenhum Nome Depois” [2004]


Aos quarenta…

Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes da viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos – tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-te. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos – nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.
Maria do Rosário Pedreira, in “O Canto do Vento nos Ciprestes” [2001]

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Uma criança, como os meus gatos.





Cada vez gosto mais dos meus gatos e menos da “espécie?” humana. Não entendo a arrumação, o emparedamento do mundo do sentir, o medo de amar, que transforma a generalidade dos homens em répteis de si próprios, em funcionários disfuncionais do mundo do sentir, produto da crueldade imposta como defesa, como máscara onde se perscruta o insondável das batidas da paixão e do coração, como se a vida fosse um acto quase persecutório, sempre contra alguém, ou alguma coisa.

Depois da experiência limite que vivi nos últimos anos, depois de tudo o que aconteceu para além do sentir, deixei de acreditar nos homens… mais, muito mais (mais demais!) na humanidade na sua essência. Se a crueldade existe, será que ela opera sempre na margem da consciência? Será uma defesa cobarde para quem tem medo de sentir, de se despojar da própria vida? Poderá existir crueldade nua e crua, primária e basilar? São questões para as quais aos poucos encontro pequenas respostas, pois qualquer evidência é fugaz, e tudo pode mudar a qualquer momento, é preciso saber esperar por esse momento, talvez certo, talvez incerto…

Existem equívocos cósmicos, pois 99,9% da humanidade ainda vive na máxima de ser ou não ser, eis a questão… a vida é ser e não ser simultaneamente. Somos e não somos, o outro lado do espelho reflecte a imagem para além da consciência de nós próprios. No outro dia, um dos meus gatos escapou-se para um dos meus quartos, onde tenho um armário espelhado, ficando a olhar para a sua imagem reflectida no espelho. São estes pequenos exemplos que nos ensinam os grandes estandartes que povoam esta coisa que chamam vida… Nem a lição das formigas no alguidar com água lhe deram o ensinamento, por isso, continuará contra mim, da forma mais cruel.

A algumas semanas de completar mais um ciclo de Saturno (ciclos de 7 anos), começo a entender que este sexto ciclo foi aquele onde a ampliação da consciência, quase sempre, dolorosa, pois toda a dor tem um sentido… onde reequacionei quase tudo, e percebi que a crueldade só é maléfica para quem a pratica, não para os alvos do agente da mesma, pois quando nos pacificamos perante a vida e o mundo, já nada disso faz sentido.

A compartimentação mental da generalidade das pessoas, subjuga-as às grades duma estagnação das suas próprias águas… Não é um mero acaso, não é coincidência (não acredito nelas) que o eixo de evolução vai de água para terra… por exemplo, de Câncer para Capricórnio ou de Escorpião para Touro…

Amar é sentir a Alma, não a alma vedada em heresias, mas a alma flutuante da intenção divina do Universo.

Hoje tenho pena de alguém… pela pequenez, pela estupidez recortada, dissimulada… a consternação que vive todos os dias, do passado que rejeita, das outras vidas de que não quer falar, mas que conheço (só eu sei onde me levou a única regressão que fiz há 4 meses), agora entendo, as noites sentados no sofá, os livros expostos na mesa em frente eram os mesmos que eu andava a ler, não foi por acaso… As palhaçadas ditas nos jornais e revistas, não passaram do festim vestido de chita e ganga barata, dos pasquins populares onde deambula o outro lado de Homero, Platão, Gil Vicente, Eça e Baudelaire… que ando a reler. Quando os li a primeira vez há vinte e muitos anos, muitas coisas me escaparam… como será lê-los aos 60 e aos 80 anos… ele pensa que se escapou… quando foge não é de mim, é dele próprio…

Perdi o medo da própria morte, às vezes, penso que já morri… frase solta no meio das palavras, terá o sentido e o estilo que eu lhe quiser dar…

Não me matas-te, por isso fiquei aqui, à tua espera, da forma mais cruel que alguma vez os homens inventaram. No dia que um homem sentir um coração a bater no baixo ventre, todas as guerras no mundo findarão… os homens vivem longe do mundo do sentir, observam à distância a vida acontecer.

Hoje no regresso a casa, no leitor do cd rodava o Zeca… "Maria Faia", Elis Regina e um dos cd’s que anda sempre no meu carro: “Trampin”, claro da Patti… 2004… estavas nos meus braços, doentinho, cheio de febre, a beber chá de casca de cebola… continuas um bebé…

Fico espantada com os teus amigos, supostos escritores ou poetas, que me enviam mail’s onde não sabem distinguir o “à” do “há”…
Há… tanto tempo… metes dó… sol… si…
Lê as partituras e aprende…

A pedido de algumas pessoas, vou tornar este blogue um pouco mais jurídico-social, pois parece ser essa a vontade de quem me tem contactado. A codificação das palavras não está acessível a qualquer um... mas este blogue tem uma finalidade...
dá-me gozo escrever sobre alguém que foge do Amor.

Mulheres diligentes, inteligentes e belas (Maio 2008). Prefiro a noção de fêmea, é exclusiva das mulheres, pois a diligência, a inteligência e a beleza são atributos também dos homens, cada vez mais raros… infelizmente.

A inteligência serve as pessoas, as causas e o Amor. A inteligência não é só a racional, que nos fizeram acreditar durante muito tempo, existe uma inteligência emocional, como testemunham as novas correntes da psicologia, como por exemplo:

“… quanto mais as nossas emoções são conscientes, mais liberdade ganhamos na nossa existência… o silêncio é mais traumatizante do que a dor partilhada… não pode haver verdadeiro perdão sem justiça. O perdão passa pela expressão do sofrimento e pela afirmação da raiva… a alfabetização emocional é o desafio actual”.

Isabelle Filliozat, in “ A Inteligência do Coração” [1997]



Trespasses

Life is designed
With unfinished lines
That another sings
Each story unfolds
Like it was gold
Upon a ragged wing

The bold and the fair
Suffer their share
He whispered to his kin
All of my debts
Left with regrets
I'm sorry for everything

And she pinned back her hair
Shouldered with care
The burdens that were his
Mending the coat
That hung on the post
In heart remembering

And her time was to come
Called to her son
This your song to sing
All of our debts
Wove with regrets
Upon a golden string

And he found the old coat
Hung on a post
Like a ragged wing
And took as his own
The sewn and unsown
Joyfully whistling

Trespasses stretch like broken fences
Winding as they may
Trespasses stretch like broken fences
Hope to mend them one day



Patti Smith, in "Trampin" [2004]


Foto 1 e 2: Uma criança, como os meus gatos...

Foto 3: Patti Smith, foto de Steven Sebring, em Stairwell, Michigan: 1997.