quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A Areia a Cair...


Tenho em casa, em cima do piano, um relógio de areia do século XV.
De vez em quanto, viro-o e fico a ver a areia a cair...

Léo Ferré [1984]

sábado, 10 de novembro de 2007

Amor sem Pele


Minhas lágrimas deixam um rasto escuro que atraiçoa meu olhar,
perco-me muitas vezes em mim só para te encontrar a ti.
Sou feita de fumo e de névoa...
ando escondida até mesmo de mim, choro e rio esperando que
sejas tu a ver e tocar-me, sejas tu a definir-me.
Esta é a arte que pratico, que exulto e me abandono a ela.
As tuas mãos foram as primeiras a folhearem-na
e cada página é a vitória sobre as trevas do dissabor.
És a visão e eu o destino rendilhado em cada vitral que
espalha o seu reflexo colorido sobre a desgraça.

Egéria, in "Amor sem Pele" [2006]

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Parte de Mim


Fazes parte de mim
Neste tempo inóspito
Que circunda as vagas do espaço

Fazes parte de mim
Neste espaço emergente
Que liberta os enclaves do tempo

Fazes parte de mim
Em cada momento ausente
Em cada desejo encoberto

Fazes parte de mim
Porque pensar em ti
É reencontrar
O que falta em mim

Fazes parte de mim
Assim

Chris, Granada [Outubro, 2005]

domingo, 14 de outubro de 2007

Amor


Afagado na solidão dos dias, carrego na pele
o desassossego da tua procura.
desgasto o corpo tingido de sal pelas ondas
vagarosas magoadas na minha busca.
indecisos são os gritos distantes das ondas.

Carregas o mar inteiro na perfeição do teu olhar.

Nuno Albuquerque Vaz, in "Canibal do Sal" [2007]

sábado, 13 de outubro de 2007

Nada mais Simples


(poucos sabem o motivo deste poema, desta noite. as frases são pontuadas, talvez este seja um dos mais belos poemas da história dos homens. não é coincidência, muito menos acaso do destino a publicação neste blogue esta noite... poucos sabem a verdade, e tu sabes meu amor... " a raiva é um apêndice do amor" - noite de 12 para 13 outubro - chris).

Nada mais simples. a raiva é um apêndice
do amor. digamos. uma mulher passa. é o amor
personificado em viagem. o desejo nem sei
como apareceu por aqui. nasceu subitamente.
como o sentimento de posse invadindo o espaço
do vazio. é a estrada que cresce na imensidão
das suas curvas, nas paredes que se alargam,
destruindo o significado das palavras. ninguém
se apercebe de nada e os espelhos não reflectem
os sons que povoam as bocas caladas. os postais
escondem as paisagens e não há quem se interesse
pela importância breve das coisas passageiras. a arte
encanta-se pelos museus e ignora os caixotes
do lixo. não se deixa abraçar sem o cuidado dos deuses
no seu carinho pelas nuvens. há uma multidão
na vacuidade de rua e resta-lhe apenas a sua nudez
para adormecer. erguemo-la no ar como se fosse
o último gesto com vida, num corpo com mérito
para apreciar o dia. o mundo desconhece o efeito
do eco. nada mais simples. o apêndice da arte
é o amor. procuramo-lo. debaixo da pele vive
um silêncio com a missão de abafar todos os ruídos

que entretanto sobejaram nos fenos verdes,
nessas ondas de flores e caules que amansam
os leitos das ribeiras. no estertor das horas, o poeta
rabisca o papel da mesa do restaurante e sofre,
porque ninguém deu por nada. apenas o empregado
derramou café sobre o verso fundamental
,

matando-lhe o sentido preconizado para o fecho
do poema.
e riu-se. miseravelmente.
aí, então, milagrosamente, caiu a tarde.

José António Gonçalves, in "As Sombras no Arvoredo" [2004]

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

YIN ============ YANG


YIN
YANG

FEMININO
MASCULINO

ÁGUA
FOGO

TERRA
CÉU

LUA
SOL

ESCURIDÃO
CLARIDADE

NOITE
DIA

OUTONO-INVERNO
PRIMAVERA-VERÃO

FRIO
CALOR

HUMIDADE
SECURA

INTERIOR
EXTERIOR

GESTATIVO
EMANADOR

ACUMULADOR
TRANSFORMADOR

QUIETUDE
MOVIMENTO

LADO DIREITO
LADO ESQUERDO

OESTE-NORTE
LESTE-SUL

PARA ONDE SE VAI
DE ONDE SE VEM

VAZIO
CHEIO

RECEPTIVIDADE
AGRESSIVIDADE

INCONSCIÊNCIA
CONSCIÊNCIA

INTUIÇÃO
DEDUÇÃO

SENTIR
REALIZAR

NEGATIVO
POSITIVO

SILÊNCIO
SOM

MEMÓRIA
IMEMÓRIA

NÃO SER
SER

MULHER
HOMEM

domingo, 7 de outubro de 2007

O Sol nas Noites e o Luar nos Dias


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natália Correia

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Rêve pour L' Hiver


L'hiver, nous irons dans un petit wagon rose
Avec des coussins bleus.
Nous serons bien. Un nid de baisers fous repose
Dans chaque coin moelleux.

Tu fermeras l'oeil, pour ne point voir, par la glace,
Grimacer les ombres des soirs,
Ces monstruosités hargneuses, populace
De démons noirs et de loups noirs.

Puis tu te sentiras la joue égratignée…
Un petit baiser, comme une folle araignée,
Te courra par le cou...

Et tu me diras : "Cherche !", en inclinant la tête,
- Et nous prendrons du temps à trouver cette bête
- Qui voyage beaucoup...


Arthur Rimbaud (1854 – 1891)

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sintra, Memória de Sempre


Sítios há, pela vibração que irradiam,
mais poderosos que outros.
A sua atmosfera e frequência de emanação
faz deles lugares únicos e privilegiados.
Sintra é um desses lugares.
Nela se cria um determinado campo vibratório
ou qualidade energética,
que ressoa em nós,
expandindo-nos a Alma e o sentir.

Em Sintra a sua “onda” é passiva, nocturna, introvertida, feminina, húmida,
lunarizada...
Força telúrica aberta ao Cosmos,
Sintra torna-nos igualmente receptivos,
numa postura de tranquilidade
e reconhecimento.
Sintra interioriza.
Acorda a voz da Alma,
encaminha-a na sua procura de Unidade,
desperta-a, para outra e maior dimensão...

Num Mundo desalmado,
sem pausas nem silêncio,
feito de turbulência, extroversão,
tensões de várias naturezas
e total carência de Vida Maior,
Sintra existe como oportunidade.
Oportunidade de reencontro:
com o mais íntimo, o mais subtil,
a essência Eterna que nos habita...
Sintra aparece como o elo perdido,
a nota novamente afinada,
a chamada aos Mundos internos...
Eco longínquo de um Som primordial,
antigo mantra iniciático,
vibração há muito esquecida,
Sintra devolve-nos a harmonia do seu reconhecimento.

Para quem souber ouvir...
para quem estiver atento,
capaz de já sentir o invisível
presente no visível,
o oculto além das aparências,
“o sem forma, que habita todas as formas”,
a realidade que se revela
na irrealidade daquilo que parece Ser...

No entanto, Sintra não deve ser um refúgio,
uma evasão ou uma fuga ao conflito dos Tempos.
Essa é a tentação que ameaça
quem nela se perde em vez de se encontrar.

A afinidade que Sintra propõe à memória da Alma,
há que a interiorizar e meditar,
que a tornar consciente,
para que a saibamos definitivamente
passar aos outros,
trazê-la a um Tempo hostil
que importa regenerar.

É Verdade que pede revelação.
A magia de certos lugares,
a emanação de certos Espaços Míticos,
é uma bênção, uma Graça, uma abundância...
Algo que nos é oferecido
para que possamos revitalizar
o nosso Eu maior.
Justo, nesse lugar da Terra, ali, onde se abrem
Canais de receptividade Cósmica,
onde baixam Poderes Sagrados,
onde se sintonizam altas-frequências,
onde se evidencia
o que sempre Foi, É e Será sempre...

Locais que são dádivas.
Pontos de Síntese.
Arco-Íris entre a Terra e o Céu.

Centros de convergência energética,
onde a Vida se exprime mais intensamente,
e nos devolve a evidência interior
de um Tempo sem Tempo...

Saibamos agradecer.

Maria Flávia de Monsaraz

OM
a Via da Universalidade

domingo, 9 de setembro de 2007

Antologia Inglória


És a sucessão do passado a constante do presente e o silêncio do futuro.
És a palavra desejada, imaginada, feita amor.
Depois, ruíram irreversíveis os castelos sonhados.
Que se anteviam cercados de incompreensão
As muralhas iam caindo uma a uma.
Seria assim, o tempo da espera.
Somarias certezas numa razão de enganos
Tinhas comigo a força da vitória.
Madura serena e sã.
E quando a esperança batia na face.
Transformavam-se em pérolas as jóias perdidas.
Brilham opalas que a sombra admira.
Um raio de sol filtra o Universo.
E vaporizava-me saudade.
E um sortilégio de nostalgia.
A própria ternura faz-se porcelana.
Querias uma canção feita de amor.
Livre de ser cantada quando te atirassem pedras.
A liberdade era fazer poemas, não problemas.
Era pintar uma rua de vermelho.
........................................................................................

Nos telhados, cruzando a rua cantavam despertas aves surpreendidas.
Abriam algemas forjadas de sonhos.
De súbito...,
Rondando limítrofe a margem da coragem.
Havia outrora um lago profundo de fundo límpido e prateado.
Ventos magnéticos agitam as águas, espelham-se arrepios à superfície.
Distantes.
Os ídolos ficaram sós no meio do caminho.
Servem de espantalho aos pardais.
E quando voltas jogando, regressas anónimo fitando a única estrela.

António M.Fernandes, in “Pedra Angular” [2006]

Analogias


Não sei se esta viagem me pertence
mas guardo este último tempo
na convicção do nada
na incerteza do talvez
nas analogias de um destino
que não alimenta mágoas
mas apaga cicatrizes
dentro de cada vida
de todas as vidas

António Sem, in “Analogias” [2003]

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Orfeu e Eurídice

Grande herói da Trácia, Orfeu era conhecido não pelas suas qualidades de guerreiro, mas pelas suas qualidades musicais. Filho de Apolo e da musa Calíope, recebeu do pai uma lira como presente e aprendeu a tocar com tanta dedicação e beleza, que ninguém conseguia ficar indiferente ao encanto da sua música.
Tanto os seres humanos como os animais, e diz-se que até as árvores e os rochedos, se rendiam ao seu fascínio.Orfeu amava apaixonadamente a ninfa Eurídice. No dia do casamento de ambos, esteve presente Himeneu para abençoar a união, mas o fumo da sua tocha fez lacrimejar os noivos, o que não trouxe augúrios favoráveis. Pouco tempo depois, Eurídice passeava com as ninfas, quando foi surpreendida pelo pastor Aristeu, que, ao vê-la, se apaixonou perdidamente e tentou conquistá-la. Na sua fuga, Eurídice pisou uma cobra e morreu da mordedura que esta lhe fez no pé. Orfeu, inconsolável, tocou e cantou aos homens e aos deuses, mas nada conseguiu. Decidiu, então, descer ao reino dos mortos para conseguir recuperar Eurídice. Perante o trono de Hades e Perséfone, Orfeu cantou o seu desgosto e o seu amor dizendo que, se não lhe devolvessem Eurídice, ele próprio ficaria ali com ela, no reino dos mortos. Todos os fantasmas que o ouviam choravam e Hades e Perséfone ficaram tão comovidos que lhe devolveram Eurídice. Mas com uma condição: Orfeu poderia levar Eurídice, mas não poderia olhá-la antes de terem alcançado o mundo superior. Caminhando na frente, Orfeu, que estava quase a chegar aos portões de Hades, com receio de ter sido enganado por Hades, virou-se para trás para confirmar se Eurídice o seguia. Esta, com os olhos cheios de lágrimas, foi levada para o mundo dos mortos, por uma força irreversível. Orfeu tentou alcançá-la, mas sem êxito. Profundamente triste, Orfeu ficou na margem do rio, durante sete dias, sem comer nem dormir, suplicando a volta de Eurídice. Depois, vagueou triste e solitário pelo mundo, sem nunca mais querer saber de mulher alguma e repelindo todas aquelas que o tentavam seduzir, até que um dia, as mulheres da Trácia, enfurecidas pelo seu desprezo, o mataram. O seu corpo foi atirado ao rio Ebro e levado até à ilha de Lesbos, onde, durante muito tempo, a cabeça de Orfeu, presa numa rocha, proferia oráculos. A sua lira foi colocada num templo de Lesbos. Outra lenda diz que as musas enterraram Orfeu, em Limetra, num túmulo onde o rouxinol canta mais suavemente do que em qualquer outra parte da Grécia e a lira do jovem apaixonado foi colocada por Zeus entre as estrelas. Orfeu encontrou por fim Eurídice e, abraçando-a, nunca mais deixou de contemplá-la.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

A Isadora Duncan


Nasci quando morreste.
Por isso trago a nostalgia
dos movimentos puros que tivestes.

David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão" [1950-1953]

sábado, 1 de setembro de 2007

Tão Breves Que Fomos



Tenho comigo palavras
Textos breves para uma história por fazer: a nossa
E tenho o tédio, a rotina dos dias
Esta encenação em play-back
Repetitiva como a distância mediana
Entre as palavras e os factos
Espaço árido à espera de charrua,
E sei do caruncho que existe em tudo
Pena é que não ficássemos amigos, dizes tu,
É que houve um tempo
Breve mas fundo

Arquivo onde me invento
Tão breves que fomos mas tão juntos
E a ti me prendo
A ti me invento
Neste espaço em que me tenho
Porque (ainda) me habitas a noite
Embora ausente
Depois embarco só
...

Foram tantos os poemas ditos
Com as mãos no corpo,
Sem a ilusão das palavras que agora sei inúteis;
Amorfas como todo este texto branco,
Por dizer-te estou aqui e sinto
Então sonho Veneza, e parto só,
Porque hoje o estar aqui magoa.

Tão breves que fomos mas tão juntos.

Carlos Alberto Fernandes
(poeta madeirense- nascido no Funchal a 16 Novembro 1954)

sábado, 25 de agosto de 2007

Avec le Temps


Avec le temps…
Avec le temps, va, tout s’en va
Mêm’les plus chouett’s souv’nirs ça t’a un’ de ces gueul’s
À la Gal’rie j’Farfouill’ dans les rayons d’la mort
Le sam’di soir quand la tendress’ s’en va tout seule

Avec le temps…
Avec le temps, va, tout s’en va
L’autre à qui l’on croyait pour un rhum’ pour un rien
L’autre à qui l’on donnait du vente et des bijoux,
Pour qui l’on eût vendu son âme pour quelques sous,
Devant quoi l’on s’traînait comme traînent les chiens;
Avec le temps, va, tout va bien.

Avec le temps…
Avec le temps, va, tout s’en va
On oublie les passions et l’on oublie les voix
Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
Ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid.

Avec le temps…
Avec le temps, va, tout s’en va
Et l’on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l’on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l’on se sent tout seul peut’être mais peinard
Et l’on se sent floué par les années perdues,
Alors vraiment,
Avec le temps… on n’aime plus.

Léo Ferré

Olhas-me


Olhas-me,
tua dúvida, minha certeza
deste azul, quase turquesa

és a tua própria cruzada
timoneiro à solta
sem pose estudada,
que busca a liberdade
não o esquecimento celebrado,
mas o tempo certo encontrado

sigo-te, prisioneiro
na tua arte em cativeiro
voz e luz de farol
crias
descrias e
recrias
luas sem Sol

integro-te e tu libertas-me


Chris

O Eterno Momento do Agora


Nunca amei ninguém, sei
Passei sempre
Tocando o inevitável logro
Disfarçando incómodos

Não enganei, enganei-me
Realizando o trajecto do conhecimento
Menos por mais
Aqui por ali
Ontem por hoje

Regresso à gruta da plenitude
Quebrando os ponteiros dos relógios
O pulsar do ventre gordo da ansiedade
Secando as gotas do suor sinuoso
Que me encharca os sonhos acordados

Afasto os lamentos
O que poderia ter sido
O que me deviam ter dado

Foi como foi
Assim por assim
No eterno momento do agora

(Amr)